22 de dezembro de 2007
2046
Se 2046 é um sítio, um quarto de hotel, um ano ou um estado de espírito não se sabe bem. Porque ninguém sabe onde guarda as suas próprias memórias. Apenas sabemos que as temos e que elas nos definem, nos preparam e nos guiam. Sabemos que todas as decisões que fazemos agora e que faremos depois são tomadas pelas memórias que já temos. Contudo, nem sempre as nossas memórias escolhem o melhor caminho, ou nem sempre escolhemos as melhores memórias.
"We cannot leave the past."
Nunca poderemos esquecer o que vivemos. O que está para trás está. Estará sempre. Mantemo-lo, com saudade, junto a nós e nunca poderemos escapar a isso, sob pena de perdermos a nossa humanidade. Apenas podemos decidir sobre o que será de facto importante manter mais perto de nós. O problema é que existem aquelas memórias que nos consomem, nos corrompem e nos corroem. Só podemos ter esperança que estas memórias nos abandonem. E esta esperança tem de ser depositada em nós mesmos e na nossa própria força.
"We can only hope that our past will leave us some day"
Eu já abandonei 2046. Estou no comboio que me leva para 2047. O passo seguinte. Ainda assim, não sei quando chegarei, ninguém sabe quanto tempo demora esta viagem. Por vezes, volto a passar pelas estações de 2046. E, então, vou observando todos aqueles que se mantêm lá através do corredor que separa os dois quartos. Ou através do túnel do comboio, depois de passar a estação. Não interessa, 2046 não é mateial. E, enquanto observo 2046, observo quem ainda vive no passado e a quem é terrivelmente doloroso sair. "Because in 2046, nothing ever changes"
E, enquanto observo, vou tentando adivinhar quem o conseguiria abandonar. Quem teria a força e o potencial para o fazer. E vou gritando através do corredor a quem queira ouvir. Nunca o consegui. Ninguém quis abandonar 2046. Estarei eu errado? Deveria eu voltar a 2046? Não posso. Quem volta de 2046 nao pode voltar. Essa é a condição.
Entretanto, passa algum tempo. Não sei quanto, aqui os relógios não funcionam. Nem sequer posso contar os dias, aqui a luz do dia é invisível. Tudo parece noite. Ou dia. Tanto faz. De repente, vejo outros viajantes. Estes decidiram, também, abandonar 2046. Ou isso, ou então estão aqui porque se identificam comigo. Ou eu identifico-me com eles. Tanto faz. Estão no mesmo comboio que eu, mas noutras carruagens. E ouve-se uma voz através do comunicador: "Senhores passageiros, aproximamo-nos da zona 1224/1225. É uma zona de muito frio e o comboio não produz calor suficiente para manter os passageiros confortáveis, por isso aconselhamos que se juntem a outros passageiros e que se abracem, ou que usem um dos andróides do comboio para o mesmo efeito. Pedimos desculpa pelo incómodo." A minha carruagem não tem andróides, e as portas parecem estar trancadas. E, então, eu procuro-te. Estás na carruagem à frente da minha. Ou será na de trás? Não sei. Já não sei para que lado se move o comboio. Não interessa, o que interessa é que estás numa das carruagens ao lado. Também estás numa carruagem sozinha, mas a tua carruagem tem um andróide (desculpa pela infeliz denominação). Tu és um pouco como Tak:
"Tak becomes intimate with one the androids (...) and falls in love with her. He then asks her numerous times to come with him. However, each time the android does not answer. Tak has heard earlier that excessive operation causes the android's response time to slow down and decides to wait on the train to see if this is the case. He sits quietly on the train, and counts the seconds that go by, hoping the android will decide to leave with him. However, the android still does not respond."
E enquanto tu esperas pelo teu andróide, eu espero por ti. Chamo-te, pacientemente, através da janela ou do corredor que separa o meu espaço do teu. A porta está trancada, mas o teu lado tem a chave na fechadura. Serei eu capaz de ser como Chow e fazer o que está certo? Ou serei eu demasiado egoísta ou demasiado impaciente para abandonar esta viagem, ou apenas porque preciso de me manter confortável (e não apenas sobreviver) na zona 1224/1225? E, ainda assim, será que eu sei o que está certo? E, agora vejo... do outro lado da tua carruagem tens mais alguém que te chama... uma cara que eu reconheço, apesar de não saber de onde (ou então está apenas demasiado longe para que o faça). De facto, não sei mesmo o que está certo.
Talvez o que eu deva fazer seja sair na próxima estação de 2046 para mudar de carruagem... Mas... espera... todos os que estamos no comboio, na viagem, sabemos que não posso. Quem volta de 2046 nao pode voltar. Essa é a condição. E agora compreendo porquê. 2046 é apenas virtual, existe apenas enquanto existir a vontade de viver no passado. Eu não tenho essa vontade, abandonou-me ao mesmo tempo que quem me deu vida. Então não posso trocar de carruagem. E ninguém abrirá a minha porta. Porque sou demasiado impaciente, estranho, irado ou efusivo e acabo por assustar aqueles que se aproximam da minha carruagem (ou do meu quarto) com a chave da minha porta. A minha porta... Porque raio é que, como o primeiro a abandonar 2046, o primeiro viajante neste comboio, escolhi logo uma carruagem onde não tenho um andróide nem sequer tenho a possibilidade de abrir a minha própria porta?
10 de dezembro de 2007
Au Revoir Simone - "Through the backyards"
Baby tell me please
Is this a dream
Spending the night with you
Beneath the cherry trees
Just make a wish and everything comes true
Wa wa wa wa...
Wa wa waa ahhh...
Out the windows of my bedroom
Through the backyards of our neighbors
But I didn't leave you waiting
There was endless concentration
Then the moon swept down to greet us
It was warm and made of flowers
Into vines that barely reached us
Climbing higher than forever
Wa wa wa wa...
Wa wa waa ahhh...
Baby help me please
In knowing this'
Cause showing never tells
Was it just a breeze
Was it a kiss
Breathless exquisite chills
Se foi um sonho ou não, não o sei. Mas, sendo sonho ou não, não me abandonará, não me deixará nos momentos negros. Ainda que, sendo sonho ou não, nunca me deixará compreender ao certo até onde chegou esse encantamento. Nem, até, as pequenas trocas entre os nossos limites, os pequenos contactos e carinhos, me permitem perceber e distrinçar a realidade do sonho. Nem o riso, nem o sorriso, nem o calor, nem o frio, nem a maravilha que foi uma certa noite.
Ambos sabemos que será um longo Inverno, daqueles que afastam de todos o calor possivel e ao qual fechamos a porta para mantermos o nosso ninho seguro. Ainda assim, espero que saibas que terás a minha porta aberta, deixar-te-ei entrar, dar-te-ei o calor que queres, mesmo que não seja o que precisas. Nunca te darei o que precisas a não ser que precises do que te dou. E se te sentires compelida para mim, não temas, não tenhas medo, é apenas a gravidade, inexplicável e incontornável. E, lá fora, vejo as estrelas a alinharem-se... Criam-se os limites e as condições. Posso transpô-las? Deixar-me-às? Ou rapidamente far-me-ás perceber que não fui feito para voar? Quererás, também tu, quebrar barreiras? Criar muros e mais muros, cujo único destino e objectivo é serem transpostos? E, lá fora, vejo as estrelas a alinharem-se... Baby help me please, in knowing this... Baby tell me please, was it a dream? Was it just a breeze? Or was it a kiss?
30 de novembro de 2007
Apareceste na minha vida sem que eu te chamasse e entraste tão depressa quanto suavemente. Apareceste e eu tenho medo de te abraçar com demasiada força, tenho medo de te abraçar com pouca força. Tenho medo de libertar o que guardas, o que escondes, o que é tão belo por fora como por dentro. Há coisas que têm tal significado e beleza, que sempre as manterei comigo. Há coisas que me fascinam e que depressa se esbatem. Por favor, não sejas apenas fascínio.
18 de novembro de 2007
13 de novembro de 2007
Dilatação do tempo
Foi Einstein o primeiro a prever este fenómeno da dilatação do tempo. Na teoria que desenvolveu sobre a relatividade, entre 1905 e 1916, a medição do espaço e do tempo é relativa e não absoluta, uma vez que o espaço e o tempo dependem directamente do estado de movimento do observador: quanto mais rápido se deslocar um objecto, mais lentamente passa o tempo para a pessoa ou objecto que esteja dentro do mesmo.Esta teoria pretendia inicialmente explicar as lacunas no conceito de movimento relativo. Mas, com o desenvolvimento da investigação, tornou-se numa das teorias básicas mais importantes na história das ciências físicas. Esta serviu de base para que os físicos demonstrassem as unidades de matéria e energia, espaço e tempo, e a equivalência entre as forças de gravitação e os efeitos de aceleração de um sistema. Para Albert Einstein os corpos produzem em seu redor uma curvatura do espaço. Assim, quanto maior foi a massa do corpo maior será a sua curvatura. Como consequência, um outro objecto será atraído para esse grande corpo, não por causa da sua gravidade mas porque simplesmente segue o caminho, que, por ser curvo, o levará até esse destino.
Dilatação do tempo:
Mas o que é exactamente o fenómeno da dilatação do tempo? Previsto na teoria da relatividade, este fenómeno prende-se com o facto de objectos ou mesmo pessoas sofrerem o efeito da dilatação do tempo de acordo com a velocidade a que estão sujeitos. Assim, o tempo para um objecto ou um indivíduo que esteja dentro de um outro objecto, que se desloque a alta velocidade, passa mais lentamente do que se estivesse num objecto que se desloque a uma velocidade mais baixa.Uma das experiências mentais mais conhecidas é o "paradoxo dos gémeos", em que se um dos gémeos viajar no espaço, onde se atingem velocidades muito altas, quando regressar à terra estará mais jovem que o irmão, em tudo idêntico a si.
Para provar esta teoria, o grupo de investigadores, liderados por Sasha Reinhardt, do Instituto Max Planck, na Alemanha, utilizou dois átomos, em que um atingiu 6,3% e o outro 3% da velocidade da luz. A partir daqui, os cientistas conseguiram identificar a idade dos átomos com uma precisão nunca antes vista. Para isso usaram uma técnica pioneira que se baseia na utilização de um laser. Esta foi desenvolvida pelo alemão Theodor Hänsch, que também faz parte da equipa de investigação, e que ganhou, em 1995, o Prémio Nobel da Física.
Para medir a dilatação do tempo, os cientistas usavam, até agora, o sistema de posicionamento global, mais conhecido por GPS, através de satélite. No entanto, um grupo de cientistas, britânicos e alemães, desenvolveu um estudo em que, através da utilização de relógios atómicos ópticos, é possível calcular com uma precisão nunca antes vista a dilatação do tempo. Este estudo considera que o sistema de GPS poderá vir a ser ultrapassado, uma vez que os relógios atómicos ópticos mostraram ser mais eficazes que o antecessor. Aliás, o relógio atómico é sem dúvida o relógio mais preciso de todos, uma vez que mede o tempo em 16 dígitos, ultrapassando em muito os relógios convencionais, com apenas seis dígitos, e os cronómetros com nove dígitos. Pela sua precisão, este é o auxiliar ideal para comprovar a teoria desenvolvida por Einstein.
11 de novembro de 2007
Sobre as quotas de música portuguesa na rádio
Pessoalmente, preferiria que não fosse necessário implementar esta lei, mas vejo-a como um mal necessário. Só o facto de haver a necessidade de se criar esta lei indica bem o estado de calamidade a que se chegou.
A música portuguesa emitida deve incluir 35% de novidades (com menos de 12 meses) e 60% de "música composta ou interpretada em língua portuguesa por cidadãos dos Estados-membros da União Europeia". Agora, o que é que se entende com "música composta ou interpretada em língua portuguesa por cidadãos dos Estados-membros da União Europeia"? Se a Nelly Furtado cantar em português, isso é música portuguesa? E se o David Fonseca cantar em inglês isso já não é música portuguesa? Este será um ponto que tem de ser revisto.
Há quem diga que não há produção suficiente de música portuguesa para preencher estes 25%. Isto é completamente falso, uma vez que já existem rádios que cuprem estes requisitos. Como exemplo, a Rádio Cidade (ou Cidade FM) diz que não conseguirá passar 25% de música portuguesa, porque não existe música portuguesa que se adeque ao seu programa... Da última vez que vi, o programa da Cidade era transmitir música para os jovens... Ora, eu sou jovem e mais de 25% da música que ouço é portuguesa. Vamos lá a ser correctos e a cumprir as leis, senhores directores das Rádios nacionais, não vamos dizer estas coisas apenas para justificar os conteúdos mais "mainstream" ou comerciais. Como muito disse o músico Pedro Osório, há uma parte muita significativa da criação nacional, fora das malhas da pop, que nunca viu a luz do dia. E este tipo de produção está longe de ser escasso ou de fraca qualidade. Portanto, o que se conclui daqui é que o problema das rádios nacionais perante esta lei passa por outra coisa, a qual os seus directores não gostam de discutir. O grande problema, é que estas rádios estão entregues a homens de negócios, que não vêm nada senão a produção fácil de lucro, que por sua vez entregam a direcção a mentes tacanhas, completamente insensíveis à nossa música mais representativa, e que acabam por adoptar formatos comerciais e de "escoamento fácil".
Isto quer dizer que, mesmo com a implantação desta lei, o problema de grande parte dos nossos artistas mais talentosos não vai terminar, ficando esta percentagem de música portuguesa obrigatória entregue às morangadas e aos Emanuéis que deambulam por Portugal. A música portuguesa de grande qualidade que tem sido marginalizada vai, provavelmente, continuar a sê-lo e vamos continuar a ouvir os mesmos que já ouvíamos, mas em dose dupla, só para "tapar o buraco" na percentagem. Apesar disso, eu ainda tenho fé no povo português e assim que os directores vejam as audiências a descer após a 31ª repetição diária da música "Pequeno T2", se vejam obrigados a ir "desencantar" uma música dos Wraygunn, Fausto Bordalo Dias, Mandrágora,Mu, ou outros afins (e que boa música que nós temos para os senhores directores irem desencantar!). Pode ser que finalmente a música nacional obtenha o reconhecimento que lhe é merecido. Só nos resta esperar que sim.
9 de novembro de 2007
Pekka-Eric, Finlândia
Pekka-Eric, antes de percorrer os corredores desta escola, decidiu expôr no Youtube (sempre no Youtube) onde contava os pormenores do seu acto futuro. Vamos, com certeza, voltar a ouvir as palavras "sou um cínico existencialista, anti-humano humanista, anti-social-darwinista e uma espécie de deus ateu",como se auto-denominava, e o dizer na T-shirt negra da imagem em que empunha a pistola: "Humanity is overrated". A humanidade pode ser sobrevalorizada, mas nunca podemos sobrevalorizar um Homem, uma vida.
Este "pacato" rapaz aclama a frase "ódio, estou cheio dele e adoro-o". Esta frase faz-nos lembrar as pessoas que conhecemos (e todos nós temos, pelo menos uma, na nossa vida) que tal como ele valorizam o culto do suícidio, o culto do negro e esta ideiaromântico-trágica sobre a humanidade. Mas estes milhões de pessoas como o Pekka-Eric não se tornaram no Pekka-Eric. Porquê? Porquê este inexplicável acto de um rapaz tão tranquilo? Precisamente por essa mesma tranquilidade, tranquilidade que se abate sobre nós e não nos deixa sequer sentir a culpa e a tristeza ao ver uma vida desaparecer perante nós. "Sou a lei, o juiz e o executor, não há maior autoridade que eu", sentenciou Pekka-Eric. Porquê? Como chegou a humanidade ao ponto de se tornar Toda-Poderosa? Precisamente, como Pekka-Eric diria, "humanity is overrated". Não há forma de remover estes actos da nossa memória, nem há forma de impedir que eles voltem a acontecer. A única coisa que podemos fazer é reflectir sobre isso e agir em concordância. Estas situações não podem servir só para dizer mal da música que o rapaz ouvia, dos livros que lia, da mãe, do pai, do gato, do país, do mundo. Estas situações têm de servir para que possamos agir sobre elas, usar toda a tristeza e indignação que advêm destas notícias e tentar mover o mundo, este mundo que permite que tais coisas aconteçam à humanidade. "Humanity is overrated". De quantos mais avisos precisamos para que deixe de ser?
O primeiro post.
"False Flags", by Massive Attack
In city shoes
Of clueless blues
Pays the views
And no-mans news
Blades will fade from blood to sport
The heroin's cut these fuses short
Smokers rode a colonial pig
Drink and frame this pain i think
I'm melting silver poles my dear
You bleed your wings and then disappear
The moving scenes and pilot lights
Smithereens have got 'em scaling heights
Modern times come talk me down
And battle lines are drawn across this town
Parisian boys without your names
Ghetto stones instead of chains
Talk 'em down cause it's up in flames
And nothing's changed
Parisian boys without your names
Riot like 1968 again
The days of rage yeah nothing's changed
More pretty flames
In school i would just bite my tongue
And now your words they strike me down
The flags are false and they contradict
They point and click which wounds to lick
On avenues this christian breeze
Turns its heart to more needles please
Our eyes roll back and we beg for more
It frays this skin and then underscore
The case for war you spin and bleed
The cells you fill screensavers feed
The girls you breed the soaps that you write
The graceless charm of your gutter snipes
The moving scenes and suburbanites
And smithereens got 'em scaling heights
Modern times come talk me down
The battle lines are drawn across this town
English boys without your names
Ghetto stones instead of chains
Hearts and minds and U.S. planes
Nothing's changed
And english boys without your names
Riot like the 1980's again
The days of rage yeah nothing's changed
More pretty flames