28 de novembro de 2008

Utopias do Século XX

Com algum atraso, e por influência de um outro trabalho para a cadeira Urban History and Philosophy, aqui vai mais um dos meus, e não só, trabalhos:


Utopias do século XX



2007/2008 – 2º Semestre

Alexandre Álvaro

Nuno Salgueiro

Sandrina Gonçalves




No final do século XIX assistiu-se a um culminar na evolução das cidades que se pode contextualizar em alguns factos.
Como resultado directo da Revolução Industrial, assistiu-se a um enorme crescimento demográfico das cidades (em menos de um século, Londres, por exemplo, quintuplicou o seu número de habitantes), e uma consequente drenagem dos campos para apoiar o crescimento urbano. De um ponto de vista estrutural, criou-se uma nova ordem na cidade, através da sua adaptação à sociedade que nela habitava (este aspecto resultou, sobretudo, na abertura de grandes artérias de comunicação, na construção de estações, na criação de quarteirões de negócio nos novos centros urbanos, na abertura de grandes lojas e hotéis, na edificação de bairros privilegiados na periferia das cidades e de bairros nos subúrbios para a classe média e operária, os slums, e na instalação das indústrias nos arrabaldes). As primeiras cidades industrializadas nascem sem administração nem controlo, numa era de desenvolvimento desordenado e arbitrário, onde a experimentação da cidade-símbolo-de-progresso era feita levianamente. Dominavam os valores da produção e da economia. Os slums marcaram consideravelmente o desenvolvimento urbano desta época, devido à grande necessidade de albergar mão-de-obra. Apesar de tomarem formas diferentes, todos tinham em comum uma regularidade fria e um aproveitamento máximo do terreno.

No momento em que esta nova cidade tomava forma, ela provocou sobre si mesma um movimento de observação, reflexão e, mais tarde, crítica. Estes olharam, pela primeira vez, para a cidade como algo estranho, exterior a eles mesmos, tendo, por isso, uma visão global da sua situação. Pensadores como Marx presumiram que a sociedade industrial implodiria, mas, ao invés, esta foi acalmada através de actividades de reivindicação, que abriram caminho à criação de sindicatos.
Destes críticos iniciais destacam-se dois grupos: o dos humanistas (médicos, dirigentes municipais e homens da Igreja) e o dos pensadores políticos (de onde se destaca Engels, considerado como um dos fundadores da sociologia urbana). Houve, ainda, um pequeno grupo de industriais que se dedicou a combater os males criados pela sua própria classe (como Robert Owen, George Cadbury, Jean-baptiste Godin ou Ebenezer Howard, que, apesar de poucos em número, foram os que de facto conseguiram construir alguma obra). No entanto, ambos abordaram a cidade da mesma maneira: denunciaram o estado de deterioração física e moral da cidade industrial, as rivalidades de classes, a democracia, a exploração do homem pelo homem, a alienação do trabalho. Esta crítica estava intimamente associada a uma crítica da própria sociedade, da economia e da política estabelecidas.

Este “caos arquitectural”, como declara Considérant, provocou um movimento contraditório, uma busca pela ordem. Nasceram propostas de ordenamento urbano que, por negarem a situação presente, se basearam num futuro ou num passado idealizados, e, por não terem uma aplicação prática, se situaram apenas no mundo da utopia (no final do século XIX, muitos filósofos acreditavam que as reformas sociais seriam atingíveis através da educação moral e intelectual das populações, o que levaria a uma condição social ideal). Como resultado de ambos os modelos, futuro e passado, distinguem-se duas tendências que dominaram a discussão urbanística da altura, e que continuam a exercer influências hoje em dia: a progressista e a culturalista.


Modelo Progressista:

Desta tendência fizeram parte, numa primeira instância, homens como Owen, Fourier e Proudhon e, mais tarde, Tony Garnier, Le Corbusier e Walter Gropius. Apesar de grandes diferenças entre eles, são os seus pontos comuns que vão definir os contornos deste modelo.

Como estabelecimento a priori, consideram a Revolução Industrial como um elemento chave na história do Homem, que indicaria o caminho para o seu destino, e que promovia o seu bem-estar, fundando as suas críticas à cidade industrial, sobretudo, na alienação do indivíduo. Promovem, assim, o ideal de progresso da Revolução Industrial, apregoando os seus valores de produção, eficácia e economia. Concebem o ideal do homem-tipo, que pode ser definido através das suas necessidades básicas. Em relação à sua concepção urbanística e arquitectónica, este é um modelo caracterizado por grandes espaços verdes que oferecem, não só, o espaço para lazer e cultivo do corpo, como respondem a uma necessidade preconizada de higiene (na utopia de Richardson, o mesmo define Hygeia como “uma cidade que tenha o coeficiente mais baixo possível de mortalidade”; Júlio Verne, introduzido no movimento progressista literário, considera que as crianças deviam considerar a mais pequena nódoa como uma desonra). A cidade transforma-se num parque, onde a figura, agora os edifícios, se mostram perante o fundo, agora o espaço, invertendo a ordem clássica de um passado recente, e deixa de ser concebida de uma forma densa, adquirindo uma distribuição fragmentada (na maior parte dos casos, cada unidade é auto-suficiente, desfrutando de uma autonomia espacial e funcional), sem que o somatório de todas as unidades crie uma entidade de essência diferente.

Outro aspecto que viram ser obrigatoriamente dado ao Homem foi o acesso ao ar, luz e água: para Godin, este era um símbolo do progresso. No desenho da cidade, uma classificação rigorosa das funções humanas dá origem a um zonamento, diferenciando, numa primeira altura: o habitat, o trabalho, a cultura e o lazer; e, mais tarde: habitar, trabalhar, locomover-se, cultivar o corpo e espírito. As suas cidades são desenhadas com base numa cultura visual (a cidade deveria impressionar e satisfazer os olhos), mas não inicialmente (sendo que foi progressivamente mais apregoada quando o seu interesse abandona a economia), de onde brotaria o progresso e contentamento social. São austeras, locais onde a lógica e a beleza coincidem. Recusam qualquer herança artística do passado, louvando novos valores: mecanização, padronização, rigor, geometrismo, eficiência; expostos ao público com o objectivo de criar exaltação, através de um manifesto futurismo. De facto, estigmatizam os valores da cidade histórica como extravasamentos Românticos, carregados de uma nostalgia que, consideravam eles, apenas traria implicações regressivas, vendo-os como debilidade humana que deve ser repreendida em prol da evolução. Defendem uma “poética da funcionalidade”, em concordância com o Futurismo, introduzida por Daniel Defoe em 1697, e desenvolvida por homens como Laugier e Cordemoy. Os edifícios são protótipos, um resultado de extensas investigações funcionais e estéticas. A cada função corresponde uma forma, que exprime a sua Verdade, anexando as técnicas industriais da estandardização e mecanização. O plano da cidade progressista não está limitado nem pela cultura, nem pelo local; uma vez que os seus protótipos, resultantes de extensas pesquisas, deveriam poder ser aplicados a qualquer homem e em qualquer sítio.

“a estandardização não constitui um freio para o desenvolvimento da civilização; é, pelo contrário, uma das suas condições imediatas. (…) o uso consciente de formas-tipo – é o critério de qualquer sociedade civilizada e bem ordenada; pois é um lugar-comum que a repetição dos mesmo meios em vista dos mesmos fins exerce sobre o espírito humano uma influência estabilizadora e civilizadora”

Walter Gropius


Modelo Culturalista:

As condições da vida na cidade, cada vez mais precárias, onde o sossego dava lugar ao ruído mecânico, à circulação intensa e ao fumo, conduziram a uma valorização do campo. Este modelo tem na sua base as obras de John Ruskin e William Morris, sendo que o seu mais activo membro terá sido Ebenezer Howard, com a Cidade-Jardim. Fizeram ainda parte dele nomes como Augustus Pugin, Camillo Sitte e Raymond Unwin.
Toma forma depois do movimento progressista, e, ao contrário deste, nasce do criticismo e não de uma visão revolucionária. Contudo, não o podemos ver como reaccionário: a sua visão era de esperança para o futuro, como o objectivo de contrariar a alienação do homem, que deixaria de ser um indivíduo meramente racional (como era para os progressistas), mas uma pessoa integral.

O ponto de partida comum é a sua visão do agrupamento humano, em detrimento da visão individual, sendo que cada indivíduo passa a ser um elemento insubstituível na caracterização e construção de cada sociedade. Como os progressistas, apontam o dedo à industrialização, mas apontando-o ao seu papel desintegrador da unidade orgânica das cidades. A sua visão da cidade é nostálgica, por uma “totalidade bela”, fundamentada em estudos arquitectónicos e arqueológicos do Romantismo. Comparam o presente com o passado, opondo ideias de mecanização e organicidade.
Como já foi dito anteriormente, estes homens idealizavam o passado e defendem-no como um ponto de partida para a salvação humana. Aqui, as necessidades espirituais, sobrepõe-se às materiais, sendo que, através de um pensamento realista, advogam que essas mesmas necessidades espirituais não podem ser mantidas sem certas determinações materiais e económicas.

Ao contrário da cidade progressista, para os culturalistas a cidade deve ter limites precisos, dimensões modestas e um desenho irregular e assimétrico (princípio retirado das teorias do pitoresco, como marca de uma ordem orgânica que, para eles, seria a única capaz de receber o legado de sucessivas épocas históricas), sem traçados geométricos. Para eles, não existiam protótipos nem padrões, cada edificação é possuidora de uma singularidade única. Esta cidade possui um ambiente, em última instância, urbano, fechado, em contraposição clara com os traçados amplos progressistas. Em termos políticos, são os ideias comunitários de uma alma comum a toda a população que impõe as suas determinações. Economicamente, a produção não é encarada como rendimento, mas sim segundo a perspectiva profundamente anti-industrialista da sua relação harmónica com a população.

Mais tarde, alguns elementos urbanos são postos em destaque, sobretudo a rua e as áreas verdes, que, segundo eles, devem ser pensados e formalizados (sobretudo os espaços verdes, que não são vistos como valores positivos só pela sua existência, como nas ideias progressistas, mas sim pela forma como são pensados e desenhados). Os pontos directores e de referência da cidade não são os edifícios, mas sim os espaços comunitários e de encontro.





Tony Garnier – Le Cité Industrielle

Em 1898, enquanto estudava na École des Beaux-Arts em Paris, Tony Garnier começou a pensar no desenho para uma cidade industrial imaginária. Em 1901, já a estudar na Academia Francesa na Villa Medici, Roma, ele enviou à École o seu primeiro estudo da Cité Industrielle. A École recusou a sua exibição, sendo que Garnier continuou a trabalhar nela durante mais 3 anos e, finalmente, conseguiu exibir o seu estudo em 1904. Garnier continuou a trabalhar sobre a Cité e publica em 1917 um livro intitulado “Une Cité Industrielle”, sendo que é a sua última publicação sobre a sua ideia original.

A Cité foi desenhada para ocupar uma área no sudeste de França, situada num planalto, com um lago a Norte e um vale e um rio a Sul. Projectada para ser, segundo o próprio, semelhante às cidades da zona, Garnier teve em consideração todos os aspectos de uma cidade real (governamentais, culturais, residenciais, manufacturas e agricultura). As funções da cidade estão claramente em comunhão, mas separadas através de um zonamento rigoroso (uma das grandes introduções feitas por Garnier, antecipando os princípios do CIAM introduzidos na Carta de Atenas de 1933), através da sua localização e circulação. O centro da cidade é dividido em duas partes (residencial e pública). Este centro é ligado a várias dependências através de infra-estruturas viárias: uma estação de caminhos-de-ferro, minas em ligação com a fábrica, a cidade velha, uma fábrica de manufactura de seda, Norte uma barragem e a estação de energia hidroeléctrica, um hospital e entre este e a cidade um parque e o cemitério. Todas estas zonas são separadas por “cordões verdes”. As zonas à volta seriam destinadas à agricultura. Os únicos elementos de uma cidade que aqui faltam são estruturas religiosas, uma prisão, uma estação de polícia e um tribunal.
As modificações implementadas por Garnier entre 1904 e 1917 nunca traíram os princípios do desenho inicial e o seu objectivo era quase sempre acrescentar uma nova ideia surgida entretanto, criada por si ou influência daquilo que se passava à sua volta. A cidade onde nasceu, Lyons, teve uma grande importância no seu estudo (na escolha das indústrias para o projecto, no uso da energia hidroeléctrica, no uso do betão armado e na concepção da Cité como parte de uma entidade regional, tal como Lyons o era). Mas Garnier teve muitas outras influências. A reforma urbana do Barão Georges Haussmann foi uma delas, sobretudo em assuntos técnicos e de higiene. Muitas das reformas urbanísticas da altura foram apoiadas por Garnier (tal como o próprio indica no seu prefácio do livro “Une Cité Industrielle”).

No final do século XIX as preocupações urbanistas tinham-se expandido para além de assuntos funcionais e geográficos, levando Garnier e outros urbanistas a ter uma preocupação também pela região envolvente das cidades. As ideias de regionalismo terão influenciado Garnier, possivelmente pela mão de Patrick Geddes e de Proudhon, sobretudo na descentralização do poder do estado. Estes aspectos do seu projecto levam-no a ter algumas semelhanças com os estudos de Ebenezer Howard para as suas cidades-jardim, como por exemplo no desejo de libertar o Homem da monótona vida moderna e na visão de que todos os cidadãos deveriam ter direitos iguais, na inclusão da energia eléctrica, na ideia de que cada família deveria ter uma casa e um jardim para si e até mesmo no número de habitantes para a cidade. Contudo não é provável que Howard tenha sido uma influência directa, uma vez que o seu livro saiu no mesmo ano que a concepção da Cité, 1898. Também Camilo Sitte pode ter sido uma influência para o francês, sobretudo nas alterações de 1917 (através de um tratamento ligeiramente pitoresco dado ao novo projecto) demonstrando preocupações comuns com o austríaco ao nível da beleza e carácter da cidade. Podemos ainda achar paralelismos entre as ideias de Garnier com as de Otto Wagner e as de alguns desenvolvimentos feitos na América (sobretudo em algo que foi chamado de Revivalismo Acadiano, que combinava um espírito de tradição académica com a simplicidade de ideais utópicos).

Também as teorias socialistas exerceram uma grande influência em Garnier. Neste período assistiu-se a um revivalismo de grande parte dos ideais utópicos dos pensadores socialistas do início do século XIX. O pensamento de Charles Fourier teve uma preponderância sobre Garnier, que acreditava no Bem do Homem (sublinhando que a fraternidade, a bondade e o amor pelo trabalho eram naturais ao ser humano), sendo que o próprio dizia que a nova sociedade, governada pelo socialismo, não necessitaria de igrejas e, uma vez que o capitalismo não existiria, não haveria assassinos ou ladrões, daí a inexistência de tribunais e forças policiais. A iniciativa individual não estava presente no seu projecto, sendo que a propriedade era comum a todos e todos beneficiam dos equipamentos públicos que estavam sob a alçada de uma administração, homens e mulheres eram considerados iguais. Garnier, como muitas das utopias do período, sublinhava a necessidade de uma vida mais básica, com base no exercício físico e possivelmente com uma adoração da natureza similar á de Zola. A inclusão de uma zona de desportos baseava-se na filosofia do final do século XVIII que apelava por uma antiguidade pagã e no amor pelos jogos. Fundamentava o seu conceito de industrialização dizendo que ela respondia ao desejo natural do Homem pelo trabalho.

Em relação à arquitectura propriamente dita, as influências foram outras. Garnier parecia recusar completamente aos modelos implantados pela École. Parecia estar mais interessado nas ideias de parte do corpo docente (sobretudo nas do professor Julien Gaudet, influenciando-o na sua preocupação pelo planeamento racional baseado na axialidade, na articulação entre as várias partes de um edifício e no seu interesse pelas funções contemporâneas) e nas de alguns colegas, como Marcel Prost, Joseph Duquesne, Eugène Hébrard ou Léon Jaussely. Mais tarde, Garnier chega a demonstrar algum gosto e simpatia pela École no projecto para a Escola de Artes da Cité. Apesar da sua aparente recusa da arquitectura do passado, o tempo em que estudou na Villa Medici e um trabalho que teve de fazer sobre Túsculo, uma antiga cidade da hoje Região do Lázio, ao sul de Roma, vão ter repercussões em parte da arquitectura da Cité (sendo que a referência mais específica era a do teatro ao ar livre, o qual possuía grandes semelhanças com o teatro grego de Túsculo).

Ao nível das estruturas é de salientar o uso a grande escala do betão. Em concordância com Baudot, Garnier parecia achar que o betão correspondia melhor a uma ideia utópica da arquitectura do final do século XIX. Baudot dizia que o betão armado alteraria a função da arquitectura, ao mesmo tempo que permitia voltar ao modelo mais simples e natural da tradição da alvenaria. Garnier estava mais interessado no ideal utópico do betão do que no prático, apesar de referenciar alguns aspectos económicos. No uso do betão, Hannebique é a figura de principal influência. Nos desenhos de Garnier também já se nota o uso de grandes paredes de vidro reforçado (também influência de Hannebique), módulos repetitivos e brise-soleils.

A Cité Industrielle contém alguns elementos, tal como a separação de funções, a circulação e a ênfase dada à indústria, que se tornaram em claros modelos no planeamento urbano. Christophe Pawlowski sugere que a Cité tenha influenciado vários outros projectos, como o projecto de Jaussely para Barcelona, as villes vertes soviéticas, os subúrbios de Amsterdão e a cidade de Kvarnholmen. Contudo, a sua influência mais importante espelha-se em Le Corbusier, que chegou mesmo a visitar Garnier. Aquilo que podemos de facto ler da Cité Industrialle é que é de facto um projecto que se trata de uma síntese de uma série de ideais e planos urbanísticos, estudados e aplicados por Tony Garnier, combinados de uma forma original. Garnier parece “dar um passo atrás para poder dar dois à frente”, fazendo uma espécie de transição entre valores culturais e outros completamente inovadores, lutando contra concepções artificiais do passado e com objectivos claros da criação de uma sociedade ideal.



Ebenezer Howard – Garden Cities

Dentro destes teóricos da arquitectura, destaca-se Ebenezer Howard, criador da teoria das Cidades-Jardim. Para além das duas opções já existentes, a vida na cidade e a vida no campo, Ebenezer Howard defende que existe uma terceira possibilidade, onde as vantagens da vida na cidade e o bem-estar proporcionado pelo campo se podem unir de um modo perfeito. A Cidade-Jardim é um refúgio da alienação das grandes cidades e, ao mesmo tempo, uma compensação ou melhoramento das lacunas do campo. O Homem deve desfrutar do progresso e da tecnologia que a cidade oferece, e do conforto e bem-estar próprio oferecido pelas paisagens naturais. Estes dois “imãs” são, de facto, uma nova entidade, cujo objectivo é unir dois mundos até agora distintos, com o intuito de criar uma nova vida, uma nova civilização salubre e com melhores condições de bem-estar.

Esta nova teoria criada por Howard já foi, contudo, no passado, alvo de profundas reflexões e estudos realizados não só por pensadores utópicos como, J. B. Papworth ao idealizar, em 1827, as “cidades rurais”; mas também por outros teóricos especializados em diferentes áreas profissionais, tais como: os economistas Marshall e Wakefield, ao defenderem o abandono das grandes cidades em favor de uma colonização planificada dos territórios rurais; e o sociólogo Buckingham e a sua constante procura do equilíbrio entre o trabalho industrial e o trabalho agrícola.

Com base nestas teorias surge então, a Cidade-Jardim: construída no centro de 2 400 hectares, ocupa uma superfície de 400 hectares e apresenta-se com uma forma circular de raio de 1 130 metros. A sua população não deve exceder os 32 000 habitantes. Possui 6 boulevards (cada um com 36 metros de largura) que atravessam a cidade do centro á circunferência, dividindo-a em 6 partes ou bairros, separando ainda os sectores primário e secundário (agricultura e fábricas), que estariam dispostas nas periferias, ao longo de um caminho-de-ferro circular que rodeia toda a cidade, ligada à mesma, através de ramificações. O objectivo é facilitar e a tornar mais rápidas e económicas as cargas e descargas de mercadorias, diminuindo o tráfego nas estradas. Quanto ao sector terciário estaria no centro da circunferência, junto com os edifícios públicos (sede da câmara municipal, sala de concertos e de leitura, teatro, biblioteca, museu, galeria de arte e hospital). Em redor deste Parque Central desenvolve-se uma grande arcada de vidro: o Palácio de Cristal, com o intuito de ser um espaço público atractivo e para ser largamente usufruído pelos habitantes.

No interior da Cidade-Jardim surge também uma grande avenida (Avenida Central) com 125 metros de largura, que forma um cinturão verde de mais de cinco quilómetros de comprimento, dividindo em duas coroas a parte da cidade que se estende para fora do Parque Central. Esta Avenida é ocupada essencialmente por escolas públicas, campos de jogos, jardins e por outras áreas reservadas a igrejas e ainda mais casas de habitação dispostas em forma de meia-lua, de modo a criar uma ilusão de ampliação da largura dessa via.

Se a população ultrapassasse o máximo calculado, parte dela formaria um novo núcleo que daria origem a uma nova cidade. Na possibilidade de existir conjuntos de Cidades-Jardim, seria prudente reflectir sobre um novo problema: o transporte entre as cidades e as comunicações. Para solução do problema foi proposto a criação de transportes rápidos por caminhos-de-ferro, que se deslocam por uma única linha intermunicipal que liga entre si todas as cidades do círculo exterior. Para além destes comboios, que não fariam paragens entre as cidades, existem também eléctricos, em grande quantidade, que ligam as cidades vizinhas entre si por uma linha directa. Seria também criado um sistema de caminhos-de-ferro que coloca o círculo exterior de cada cidade, em ligação directa com a Cidade-mãe central.
Podemos ver que Ebenezer Howard, como grande parte dos pensadores utópicos dos dois grandes grupos, não seguia dogmaticamente a doutrina culturalista sendo que as suas ideias correspondem, algumas vezes, às ideias marcadamente progressistas (a preocupação com a higiene física, o zonamento). No entanto a Cidade-Jardim é um paradigma do modelo culturalista. Howard impõe uma limitação espacial e populacional à cidade; estimula a que cada indivíduo modifique o espaço à sua volta e a sua habitação de acordo com a sua vontade; os seus planos possuíam indubitavelmente um carácter urbanista, antagónico ao pensamento progressista; a relação entre a Cidade-Jardim e a produção dos sectores primário e secundário da periferia é claramente semelhante ao que se passava na Idade Média.

Howard não era apenas um pensador utópico: era também um realista. Em 1899 é, finalmente, fundada uma Associação Cidade-Jardim e em 1904 é iniciada a construção da primeira cidade-jardim, nos arredores de Londres, projectada pelos arquitectos Raymond Unwin e Barry Parker, dando início a uma das únicas aplicações concretas praticamente literais destes projectos urbanistas. Mais tarde, esta ideia de cidade, propaga-se rapidamente por toda a Europa, dando lugar a numerosas tentativas da sua realização.



Le Corbusier – Cité Contemporaine, Plan Voisin e Ville Radieuse

“Ordenner c’est classer.” Le Corbusier

Ao mudar-se para Paris, Le Corbusier viu-a enquanto uma civilização ameaçada pelos novos meios, que ao mesmo tempo, segundo ele, a poderiam salvar, sendo inevitável a intensificação dos elementos de organização num centro. Os problemas da cidade parisiense da época são levantados na revista por ele iniciada: L’Esprit Nouveau. Corbusier baseou o seu pensamento social em jogos de opostos: autoridade e liberdade, mecânico e artesanal, planificado e espontâneo; e via no plano urbanístico um utensílio para criar uma harmonia social. As suas teorias constituem, em grande parte, uma refutação das teorias de Frank Lloyd Wright.
Em 1922 surge a primeira resposta aos artigos de L’Esprit Nouveau: a cidade contemporânea para três milhões de habitantes propunha a reconstrução da sociedade industrial, o banir da decoração e a criação de um ambiente no qual Homem e Máquina estivessem juntos. A cidade com três milhões de habitantes pretendia ser o tipo ideal de uma cidade industrial, cuja imagem podia ser expressa graficamente e aplicada a toda a sociedade moderna.*
A cidade ideal de Le Corbusier seria uma malha de ruas, perfeitamente simétricas*, essa simetria simbolizaria a victória da razão sobre a anarquia. Nesta cidade simétrica, tudo seria disposto segundo a sua função em sectores distintos: circulação, trabalho, habitação, divertimento. A primeira proposta, a “cidade contemporânea para três milhões de habitantes”, possui um sistema de organização concêntrico: vinte e quatro torres de sessenta andares, de planta cruciforme penteada de forma a apanhar mais incidência solar, construídas em estrutura metálica e cobertas com vidro formam um centro, localizado no centro dos eixos da rigorosa ordem, rodeados pela paisagem urbana, cheia de áreas verdes e ruas. No centro desta cidade encontrar-se-ia um enorme centro de transportes.
Entre 1922 e 1929 Le Corbusier trabalha um plano para o centro de Paris: o “Plan Voisin”, que retoma os princípios estudados na “cidade contemporânea para três milhões de habitantes”, mas, desta vez, muito pronunciado pelo apagar de uma parte do centro histórico de Paris, que considerava apenas manter os edifícios históricos de maior importância como memórias. Na opinião de Corbusier, “para se salvar, toda a grande cidade deve reconstruir o seu centro. Os habitantes das cidades sacrificam-se a uma vida sem esperança – sem descanso – sem céu, sol ou áreas verdes”.
Os estudos de Corbusier, na verdade, nunca alteraram em muito as suas bases. Em 1935, Corbusier apresenta o plano para a “Ville Radieuse”, onde está presente a já estudada separação de funções, a procura da solução dos problemas de circulação e a amplitude das zonas verdes. A base são grandes torres, que viriam a ser rodeadas por áreas verdes, centros comerciais e de negócios. Os blocos de apartamentos encontram-se sobre pilotis de forma a libertar o nível do chão e possuem jardim e zonas para practicar desporto, a indústria encontra-se isolada e as comunidades satélite estão articuladas ao centro.
A Ville Radieuse pretendia ser uma cidade perfeitamente adequada à época e ao progresso da sociedade urbanizada, como acontece com a Broadacre City de Frank Lloyd Wright. No entanto, enquanto Wright defendia uma cidade dispersa, Le Corbusier defendia a intensificação da concentração urbana. Os seus ideais acabaram sendo extremamente importantes para o movimento moderno, contribuindo para o impulsionar dos CIAM (Congressos Internacionais da Arquitectura Moderna), assim como para a Carta de Atenas. A polémica tábua rasa proposta por Corbusier, valeu-lhe uma profunda influência nas gerações vindouras, mas também uma profunda oposição.

“[Avec] sa clarté et son elegance cartésiennes, mais aussi, hélas, son insensibilité baroque à l’époque, au changement, à l’adaptation organique, à l’adéquation fonctionelle, à la complexité écologique.”
Lewis Mumford


Frank Lloyd Wright – Broadacre City

“Olhemos para a planta de não importa qual cidade, é observar um tumor em crescimento.” Frank Lloyd Wright

As ideias da corrente anti-urbanista americana vão levar ao nascimento de um terceiro Movimento: o Naturalista, que vai tomar forma sob as ideias de Wright para a Broadacre city.

Wright tece as suas primeiras considerações para a cidade ideal em 1932, quando edita The Disappearing City, no seguimento das Conferências Kahn na Universidade de Princeton*, em 1930. The Disappearing City surge após a queda na bolsa, e trata de uma série de críticas à cidade actual: feia, congestionada, mal administrada, economicamente desastrosa. Face a essa cidade congestionada, multiplicada de forma anárquica, Wright pensa na devolução da Verdade da Forma.

Para Wright, a Humanidade desde sempre se dividiu em dois grupos: os nómadas e os homens das cavernas. Os homens das cavernas teriam sido a origem da construção da cidade, mas esta nunca havia conquistado o homem nómada, que se sentiria sempre aprisionado.

A cidade ideal de Wright seria um local onde ambos poderiam habitar. A indústria automóvel veio reforçar esta ideia, pelo encurtamento das distâncias. Assim como Henry Ford, fundador da Ford Motor Company e criador da Muscle Shoals (proposta de Henry Ford que, descentralizando a indústria, pretendia uma união indústria-agricultura), Wright acreditava na mobilidade. O desenvolvimento desta nova forma de transporte, que era o automóvel, faria com estas se tornassem mais disponíveis e, por consequência, mais económicas.

“Plainly… the ultimate solution will be the abolition of the city, its abandonment as a blunder… We shall solve the city problem by leaving the city.“ Henry Ford

O habitante desta cidade devia ser livre, e tudo o que o artista criasse deveria ser em função do cidadão e dos seus valores. A descentralização tomava, aqui, a forma de destruição dos muros da cidade, uma proposta anti-urbana que libertaria homem das cavernas e nómada.

As bases para esta cidade ideal são publicadas na New York Times Magazine, no seguimento de um artigo acerca da Ville Radieuse de Le Corbusier, apresentando a sua forma de habitação densa em máquinas de habitar. O artigo “Broadacre City: An Architect’s Vision” constitui uma resposta ao que Wright considerava de mais negativo na cidade da actualidade.

Broadacre City seria uma sociedade auto-suficiente, definida e rodeada por quintas/propriedades, ligadas por um sistema de transporte. Esta ideia foi colocada em prática com um primeiro isolamento da cidade, de seguida das suas funções e, mais tarde, pelo envolvimento na paisagem.

Não reconhecendo um centro, regra ou paisagem dominada pelo Homem, a Broadacre de Wright, ao contrário do que acontece com a Cidade Jardim de Ebenezer Howard, onde se preconiza a união entre campo e cidade mas onde estes se diferenciam, não deixaria diferenças entre o estilo de vida rural e urbano.

“No private ownership of public needs
No landlord or tenant
No “housing”. No subsistence homesteads
No traffic problems
No railroads. No streetcars
No grade crossings
No poles. No wires in site
No headlights. No light fixtures
No glaring cement roads or walks
No tall buildings except in isolated parks
No slum. No scum
No major or minor áxis”
Frank Lloyd Wright (Cartaz síntese da apresentação da Broadacre em exposições)

Esta cidade descentralizada visava a criação de condições para uma sociedade de fazendeiros e proprietários, não significando que a base fosse a subsistência. Segundo Wright, uma sociedade de propriedades seria uma sociedade de indivíduos. A ideia de Jefferson* acerca da democracia moderna, encontra novo sentido no conceito de cidade ideal de Wright, reforçada através do uso da tecnologia. O ideal de descentralização não permite ao conceito de Wright a repetição imediata nem a linearidade, como acontece na Cidade Linear de Soria y Mata, já que o isolamento prevê distanciamento de outros conjuntos. No entanto, existem semelhanças com o plano de Soria y Mata, pela exaltação dos meios de transporte e sua relação com as zonas de indústria.

Este conceito, é desenhado pela primeira vez, esquissado, em 1934, encontrando os três elementos principais do plano: estradas, áreas verdes e habitação. Possuindo todas as instituições de uma sociedade moderna, a Broadacre seria um quadrado, no qual a habitação ocuparia um lugar central: 40 hectares de propriedade no centro do plano, alojariam 1400 famílias e estariam ligados a escolas, lojas, edifícios de escritórios, fábricas, áreas recreativas e mercados, que seriam locais de trocas cooperativas semelhantes a feiras, através de estradas principais e vias rápidas.

Para Wright, o indivíduo era capaz de se elevar em todas as suas capacidades, capaz de mudar o mundo. Por isto, este possui o direito absoluto da sua propriedade, de novo, contrariamente ao que acontece com a proposta de Howard, onde a cidade é uma comunidade compacta. A Broadacre seria a colocação em prática da ideia de democracia, onde o individualismo é o valor central.

A base do plano era a família, cuja habitação seria horizontal e sem pretensões, um elemento da paisagem, numa procura de total respeito pela Natureza. O plano livre e funcional da casa estaria de acordo com as possibilidades económicas de casa família, no entanto, nenhuma família faria parte deste plano se não tivesse dinheiro para um automóvel ou se tivesse posses para mais de cinco.

O plano final da Broadacre surge em 1934, sofrendo algumas alterações posteriormente, e trata de um conceito, ao qual a maquete, detalhadamente apresentada em exposições várias, serve de sugestão. Não obstante, esta sociedade democrática apresentada por Wright pressupõe a existência de um cidadão ideal. O arquitecto esperava que vendo as suas reflexões o indivíduo se elevasse, compreendendo os seus ideais, numa espécie de profecia.

“Acreditar na sua própria ideia, acreditar que aquilo que é verdadeiro para si mesmo, no seu coração, é verdadeiro para todos os Homens, esse é o génio.”Ralph Waldo Emerson




Conclusões

O constante desenvolvimento do século XIX e XX trouxe novas matrizes espaciais e temporais, de onde emanam as novas correntes do planeamento urbano, que se vêm opor a uma cidade incapaz de responder aos novos requisitos sociais. Os pensadores inseridos nas correntes aqui mencionadas acreditavam que a solução para a cidade do futuro teria realização física na lógica e eficácia do plano urbano racional, imaginando o futuro enquanto modelo de uma possível solução, e não enquanto processo ou problema. Por não verem a cidade como processo, acabaram extraindo-a da sua temporalidade e, por vezes, da sua espacialidade, tornando-a, no sentido etimológico da palavra, utópica, de lugar nenhum e, como tal, os seus ideais nunca foram tornados realidade física. No entanto, precisamente devido a esse carácter utópico, tornaram-se fortes influências pelas reflexões precisas que fizeram, continuando, por isso, a ser utilizadas como modelo a alguns planos urbanos. A verdade é que, embora nunca construídas, as cidades utópicas continuam gravadas na nossa história, em livros, artigos, filmes e exposições, que nos trazem o seu génio, sobrevivendo como reflexão.

O problema deste tipo de planeamento é que, construído no imaginário, não pode ser comprovado, levando ao surgimento de problemas como a arbitrariedade, o autoritarismo e a outros erros nos seus traçados e ideologias, e o seu fracasso em termos práticos pode ser explicado pelo rompimento com a realidade socioeconómica da época. Os sistemas de valores em que se baseiam estas correntes apresentam uma abordagem científica ao problema que se encontrava desajustada com a realidade social, visando uma realização universal das formas que criavam e esquecendo que um objecto social acarreta não só um valor funcional, mas também um valor de significado. Tal como num objecto industrial, procuravam criar um modelo que respondesse à realização de uma funcionalidade e eficácia máximas e tratavam a cidade como um instrumento usado para responder a um determinado número de funções vitais (fossem elas físicas ou espirituais), desprezando que, como disse Françoise Choay, “além desse funcionalismo, além do alojamento, resta habitá-lo”.

Outro erro destes urbanistas prendeu-se pela forma como criaram os organismos de gestão da nova cidade que pretendiam criar: os grupos de decisão passaram a ser constituídos por especialistas (técnicos de construção, engenheiros e arquitectos), que possuem uma linguagem restrita ao seu meio e que se afastam sucessivamente dos habitantes, obrigados a entregar os seus poderes pela complexidade dos mecanismos que regulam a cidade. Os urbanistas passaram a deter praticamente todo o poder de decisão sobre os traçados urbanos, adoptando uma posição irredutível e, por vezes, caprichosa perante a apreensão dos habitantes, o que se traduz não só em aspectos negativos para esses mesmos habitantes, que se vêm privados de uma saudável actividade nos grupos de decisão, como também em aspectos negativos para os urbanistas, que perdem o contacto humano necessário para o desenvolvimento dos seus projectos.

Perante isto, aquilo a que assistimos em meados do século XX é ao aparecimento de uma segunda crítica, que veio contestar o pensamento dominado pelas utopias e que vai basear na realidade o seu planeamento urbano. Apesar de seguir as mesmas direcções temporais nas suas pesquisas (passado e presente), acabaram por substituir o modelo pela quantidade de informação, tenha ela um carácter de previsão (progressista), com base numa nova visão para as cidades, ou de tradição (culturalista), com base numa reinterpretação e reestruturação das cidades.

“O estudo do coração da cidade, e em geral dos centros de vida comunitária, aparecem-nos actualmente como oportuno e necessário. As nossas investigações analíticas demonstram que as zonas centrais das nossas cidades são regueiros Estéreis, e aquilo que um dia constituiu o coração, o núcleo das velhas cidade, hoje está desintegrado (…) sem deixar de reconhecer as enormes vantagens e possibilidades dos novos meios de telecomunicação (rádio, cinema, televisão, imprensa, etc.) continuamos a pensar que os locais de reunião pública (…) devem ter o seu lugar nas nossas cidades”

José Luis Sert, 1951, Hoddesdon, VIII CIAM





Bibliografia

AA.VV; Teoria da Arquitectura – do Renascimento até aos nossos dias.
Itália: Taschen, 2003.

CHOAY, Françoise; O urbanismo: utopias e realidades, uma antologia.
São Paulo: Perspectiva, 2005.

CHOAY, Françoise; The modern city : planning in the 19th century.
New York : George Braziller, 1969.

FISHMAN, Robert; L'utopie urbaine au XXe siècle : Ebenezer Howard, Frank Lloyd Wright, Le Corbusier.
Bruxelles : Pierre Mardaga, 1979.
GIEDION, Sigfried; The Space, Time and Architecture – the growth of a new tradition.
Cambridge, Massachusetts: Havanna University Press, 1941.
GOITIA, Fernando Chueca.; Breve História do Urbanismo.
Portugal: Editorial Presença.

GRAVAGNUOLO, Benedetto; Historia del urbanismo en Europa : 1750-1960.
Madrid : Akal, 1998.

JOHNSON, Donald Leslie; Frank Lloyd Wright versus America – the 1930s.
Cambridge, Massachusetts: The MIT Press, 1990.

WIEBENSON, Dora; Tony Garnier : the cité industrielle.
New York : George Braziller, 1969.


(Imagens não incluídas)

17 de novembro de 2008

Estavam no Princípio do Mundo II

Passou-se meia hora e meia vida, olharam-se os quatro e voltaram para casa. Conversaram muito pouco durante a viagem, e apenas palavras estéreis sobre esta ou aquela música, ou sobre uma qualquer ocorrência no caminho, o rádio mal fazia as vezes do silêncio. Não falavam das histórias passadas em conjunto, esse tema tinha sido o principal dos últimos dias, mas não daquele. Não só aquilo que os esperava dominava os seus pensamentos, como o passado ainda era demasiado presente para que conseguissem contá-lo, agora que acabava. A sua vida comum, a sua amizade, os tempos de escola, todas aquelas pequenas coisas pareciam agora ainda mais pequenas, quase nada comparadas à grande muralha que tinham à sua frente, e no entanto sabiam que lhes eram mais preciosas. Eram homens e mulher com uma missão. Foi para isso que trabalharam, foi o caminho que prometeram seguir e disso foram incumbidos, escolhidos a dedo para uma senda solitária mas de pensamentos de bando. Esta noite cada um dormiria na sua própria casa, aproveitando para se despedir da família, amigos e vizinhos, do cão e do gato, da casa onde viveram a sua adolescência. No dia seguinte, como combinado, encontram-se no aeroporto três horas antes do voo do primeiro a partir. Marcaram os quatro voos para o mesmo dia, a horas semelhantes e com destinos completamente separados, Estados Unidos da América do Norte, Timor-Leste, Espanha e Reino Unido.

Nenhum deles dorme esta noite. Três quartos de hora depois das duas da manhã, Jonatas levanta-se, desliga o rádio e veste a roupa já posta de lado. Vai olhando devagar o seu quarto, como se fosse a primeira vez que ali estava estranhou o tom azulado que entrava pela janela azul de vidros azuis. Reparou pela segunda vez como era singular, borda escura, moldura e grade brancas que dividem seis pequenos vidros quadrados, todos diferentes, mas sempre azuis. Na cama a luz intensa da rua desenhava o caixilho e a claridade alastrava pelo quarto. Com um gesto seco, que perturba de imediato todo o silêncio da casa adormecida, fecha o armário, pega nas malas e desce as escadas do sótão, raspando uma última vez com a mão no tecto baixo de duas águas. Despede-se de sua mãe, que meia ensonada ainda larga uma lágrima, e sai de casa. Não olha sequer para trás, mas sem dar conta, já dentro do velho carro vermelho, vê de relance a janela azul do seu quarto, como que por reflexo a algo que se moveu. Será a última memória da sua antiga casa a desvanecer. Rapidamente cruza a vila onde nasceu e viveu toda a sua vida até então, com excepção de um ou outro mês há muito esquecido, toma uma das principais saídas da cidade, não é nem de perto a hora combinada, mas sabe que nenhum dos outros está a dormir e dirige-se para norte. Primeiro passa em casa de Eva, a mulher do grupo, e sua mais próxima companhia há coisa de três anos. Ao chegar, o gesto do costume, três pedrinhas do chão são lançadas contra a janela mais alta da velha casa, lembra-se rapidamente das tardes de verão ali passadas, os dois ou os quatro, a luz do quarto que aquecia a madeira escura do chão onde se costumavam deitar. Lá vem ela a descer as escadas, quinze minutos depois, malas em ambos os braços e um meio sorriso na boca. Entra em silêncio no carro, ocupa o lugar que há meia década lhe foi destinado, ao lado do condutor, beijam-se como se há muito não se vissem, sozinhos no mundo, respiram fundo, a custo desviam o olhar, o carro arranca. Dirigem-se agora em direcção ao centro da cidade. Lisboa. Em cada rua que passam vão lembrando aquilo que era, a linda cidade dos seus tempos de maior juventude, branca e familiar, hoje dominada pela luz intensa que foi conquistando terreno, e pelo movimento constante de pessoas e bens. A esta hora da noite nem todos os lugares da cidade são acessíveis, o recolher obrigatório, imposto em algumas partes de há dois meses para cá, e o trânsito automóvel embaraçam-lhes os movimentos na sua outrora conhecida cidade, assim têm de combinar com José um sítio seguro para se encontrarem, perto de sua casa, este não mora com a família, é muito mais célere a desocupar a sua morada, malas feitas e casa vazia. Rapidamente entra no carro, boa noite dito à pressa e arrancam, desta vez para Sul. Sobral mora do outro lado da ponte, e como de costume são mandados parar à entrada, mostram os documentos mas tentam esconder as caras nas escassas sombras, este pode ser um dos poucos interessados que ainda repara naquilo que se passa, seja pelos jornais ou pela televisão poderia reconhecê-los, e não estavam para perguntas acusadoras. Passaram sem problemas e pouco depois estavam em frente à casa de Sobral, viram a luz do quarto acesa e este assomou à janela assim que ouviu o carro parar, um grande sorriso acendeu-se no seu o rosto, sempre fora o mais alegre do grupo. Saíram para o esperar, este abalou rapidamente, ainda com uma manga do casaco por vestir, abraçou-os um a um e depois os quatro ao mesmo tempo. Sob a primeira luz da manhã que só agora acorda, as luzes artificiais são desligadas, os olhos descansam, sentam-se no carro que geme perante toda a carga, sozinho nas suas lamentações, que estes agora que seguem juntos sentem-se mais animados.

10 de novembro de 2008

Estavam no Princípio do Mundo

Estavam no Princípio do Mundo. Decidiram juntar-se ali, naquele espaço que lhes é único, o lugar que é mais Casa do que onde vivem. É o sítio perfeito para irmos, disse um, os outros concordaram e todos sabiam porquê. Passaram este dia e o dia anterior juntos, sem saírem da vista uns dos outros, se não contarmos com as idas à casa de banho, e uma ou outra escapadela inocente por parte do casal, que mesmo sendo estes tão unidos, há sempre coisas que não se partilham com todos. Sentem-se sós, completamente isolados no mundo, cada um por si e, ao mesmo tempo, os quatro juntos, se lhes perguntarem, nenhum deles saberá explicar esta solidão acompanhada. Mantêm os olhos fixos no horizonte, no mar, imaginam tudo aquilo que está para vir, ninguém articula uma única palavra, nenhum gesto é feito ou tão-pouco começado. É uma imagem idílica, esta em que se encontram três homens e uma mulher, é final de tarde de Julho e adivinha-se noite quente. Em frente, à direita e à esquerda o planalto termina numa linha nítida, como um corte de cirurgião, atrás deles, um edifício de arquitectura simples, daqueles que parece ali existir desde o início dos Tempos, encerra a imagem. O carro vermelho onde viajaram está estacionado mesmo junto ao precipício e, voltados para este e em redor do primeiro, não se mostram a quem por lá passa, já não são muitos os turistas e viajantes a esta hora, o que ajuda ao propósito com que ali foram. O céu, vermelho também, parece querer devolver ao velho carro as suas cores de antigamente. O tempo estagnou diante deste pequeno grupo, como se por sua deliberação fosse, o sol não se põe, os pássaros prolongam o voo por mais uns instantes, até o ar está calmo e quente, contrariamente ao costume por estas paragens tão afamadas pelas suas ventanias, dele, nem o mais pequeno sopro. Poder-se-ia dizer que se ouve o silêncio, que este ressoa pelo ar, mas será provavelmente o bater das ondas, lá bem em baixo contra a escarpa, mantendo ritmo constante e avisando que, afinal, o tempo não espera por ninguém. Para já deixam-se estar ali, e a vontade de se separarem é nenhuma. Era o fim de uma era, e sabiam-no bem.

6 de novembro de 2008

O Caderno de Saramago

"Quando numa habitação imersa em total obscuridade acendemos uma luz, a escuridão desaparece. Então não é raro perguntar-nos: “Para onde foi ela?” E a resposta só pode ser uma: “Não foi para nenhum lugar, a escuridão é simplesmente o outro lado da luz, a sua face secreta”. Foi pena que não mo tivessem dito antes, quando eu era criança. Hoje saberia tudo sobre a escuridão e a luz, sobre a luz e a escuridão."

O Caderno de Saramago