10 de novembro de 2008
Estavam no Princípio do Mundo
Estavam no Princípio do Mundo. Decidiram juntar-se ali, naquele espaço que lhes é único, o lugar que é mais Casa do que onde vivem. É o sítio perfeito para irmos, disse um, os outros concordaram e todos sabiam porquê. Passaram este dia e o dia anterior juntos, sem saírem da vista uns dos outros, se não contarmos com as idas à casa de banho, e uma ou outra escapadela inocente por parte do casal, que mesmo sendo estes tão unidos, há sempre coisas que não se partilham com todos. Sentem-se sós, completamente isolados no mundo, cada um por si e, ao mesmo tempo, os quatro juntos, se lhes perguntarem, nenhum deles saberá explicar esta solidão acompanhada. Mantêm os olhos fixos no horizonte, no mar, imaginam tudo aquilo que está para vir, ninguém articula uma única palavra, nenhum gesto é feito ou tão-pouco começado. É uma imagem idílica, esta em que se encontram três homens e uma mulher, é final de tarde de Julho e adivinha-se noite quente. Em frente, à direita e à esquerda o planalto termina numa linha nítida, como um corte de cirurgião, atrás deles, um edifício de arquitectura simples, daqueles que parece ali existir desde o início dos Tempos, encerra a imagem. O carro vermelho onde viajaram está estacionado mesmo junto ao precipício e, voltados para este e em redor do primeiro, não se mostram a quem por lá passa, já não são muitos os turistas e viajantes a esta hora, o que ajuda ao propósito com que ali foram. O céu, vermelho também, parece querer devolver ao velho carro as suas cores de antigamente. O tempo estagnou diante deste pequeno grupo, como se por sua deliberação fosse, o sol não se põe, os pássaros prolongam o voo por mais uns instantes, até o ar está calmo e quente, contrariamente ao costume por estas paragens tão afamadas pelas suas ventanias, dele, nem o mais pequeno sopro. Poder-se-ia dizer que se ouve o silêncio, que este ressoa pelo ar, mas será provavelmente o bater das ondas, lá bem em baixo contra a escarpa, mantendo ritmo constante e avisando que, afinal, o tempo não espera por ninguém. Para já deixam-se estar ali, e a vontade de se separarem é nenhuma. Era o fim de uma era, e sabiam-no bem.
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