10 de janeiro de 2008

"Esta música dá-me raivinha de dentes"

Já estou há algum tempo para falar deste assunto e, finalmente, apeteceu-me.
De que música estou a falar? Ora, é do "Pequeno T2", do Ricardo Azevedo, pois claro! E porque é que esta música me dai raivinha de dentes? Principalmente por causa da letra. Não quero falar muito da rima ou da métrica (para ver um exemplo perfeito sobre ambas as categorias, ouçam os versos "Lamentei, tudo o que não fiz / Vou fintar qualquer obstáculo, para concretizar /Os meus sonhos". Já que aqui não dá para perceber a métrica, onde, minha gente, é que fiz, concretizar e sonhos rima? Tudo bem, podia até não rimar e mesmo assim soar bem, mas não é, obviamente, o caso. A poética é nula). Vou, então, falar da letra:


Eu sonhei, que o mundo estava a acabar
E isso fez-me pensar
Em tudo o que me resta fazer

Tudo bem, dentro do possível, até aqui. Mesmo que, para um jovem dentro dos 20s/30s (penso que seja este o público alvo e não os casais de meia-idade), seja um pouco pessimista, todos passamos por uma fase menos boa, pois as crises não têm idade para aparecer.

Lamentei, tudo o que não fiz
Vou fintar qualquer obstáculo, para concretizar
Os meus sonhos

Bom, como disse que não ia falar da rima ou da métrica, até não me parece mal. É um jovem cheio de vontade, cheio de planos, cheio de sonhos e de vida para enfrentar a sua crise existencial. E com uma vontades destas só podes ter um grande futuro pela frente! Então, caro amigo, o que vai ser? Por onde vais começar? Conta-nos todos esses sonhos!!

Apenas...
Tenho que virar
A minha vida de pernas para o ar
E procurar, uma casa
Para eu morar

Um pequeno T2
Onde podemos viver os dois
Com vista para o mar e um jardim
Um carro com teto de abrir

Então... só isso? Esses são os teus sonhos? Era só isso? Portanto, quando vais fintar todos os teus obstáculos significa que vais tirar esse rabo de casa dos teus pais ao fim de 30 anos? E os teus sonhos são um T2, pequeno! (como estudante de arquitectura podia fazer aqui uma dissertação sobre isto, mas deixo isso para outra altura), com vista para o mar e um jardim? Pequeno? Mas assim, pequenino? Com vista para o mar e pequeno há de ser onde? Na Cruz Quebrada? Ok, com vista para o mar e um jardim já não deixa margem para muito, mas tem mesmo de ser pequenino? E um carro com tecto de abrir? Não achas que os teus sonhos são, sei lá... pequeninos?
(Já agora, quem é que rima dois com T2??)

Apenas...Tenho que virar
A minha vida de pernas para o ar
E procurar, uma casa
Para eu morar

Agora a sério, é apenas com uma mudança de casa que vais virar a tua vida de pernas para o ar? Tudo bem que com a casa e o carro torna-se mais fácil criar esse ninho de amor que tanto queres. Afinal de contas gastar o dinheiro para ter sexo sempre é melhor que andar por aí na droga... Ok jovem, vai em frente, vira lá isso tudo do avesso!

Só, me falta arranjar um emprego
Para poder estar contigo
Só contigo...

Então... mas... espera lá, tu queres um T2 com jardim e vista para o mar e um carro com tecto de abrir e te falta arranjar um emprego? esse pormenorzinho de financiamento tsem importância? Nem no MacDonalds tu trabalhas? Mas achas que são os papás que vão pagar tudo até ao fim da vida? mas de facto, com tantos sonhos e vontade de virar tudo de pernas para o ar, com tanto obstáculo na vida que tens de ultrapassar (sem emprego e a viver em casa dos pais, sabe-se lá que obstáculos terá o menino. Provavelmente decidir entre ver os Morangos ou o Benfica, que, azar do caraças estão a dar ao mesmo tempo! Podes sempre cravar duas TV's aos pais e ver as duas coisas ao mesmo tempo...), quem é que tem cabeça para arranjar um emprego, não é?
Portanto, recapitulando, vamos virar isto tudo de pantanas, ultrapassar estes obstáculos que nunca mais acabam, o que eu quero é um T2 pequenino, desde que veja o mar e tenha verdinho à volta, isto tudo para estar contigo que eu sou muito romântico... Ora, vamos lá as questões secundárias, deixa lá ver o que é que me falta... É isso, um emprego. Aquilo que a malta faz das 9 as 5 e que me dá o guito para eu comprar o meu T2zito. Ok, então como eu sou um rapaz determinado e cheio de força para esta coisa da vida, eu vou tentar encontrar um emprego. Tentar... Tentar é dizer: "Oh mãe! Traz-me aí o jornal para eu ver se há aí alguma coisa que pague bem e não dê muito trabalho!" Vou mas é tentar que isso de procurar arduamente implica sair de casa e perder as Tardes da Júlia. Pior! Isso pode implicar estudar um bocadinho e tirar o 12º ou um curso! Bolas, que isto de virar a vida de pernas para o ar dá trabalho!

Vou tentar...
Encontrar!!

Tenho que virar
A minha vida de pernas para o ar
E procurar, uma casa
Para eu morar!

Mas olhem lá que não é um tentar qualquer! É com força! E vontade! É um gritar bem alto para que a minha mãe traga o jornal! É até que a voz me doa!

E pronto, é isto, meus amigos. Peço desculpa, mas se esta é uma das vozes que gritam mais alto pelo povo portugês, que mais representam o povo português, está tudo desgraçado...

7 de janeiro de 2008

Memória, Monumento e Morada, na Sociedade, na Arquitectura e nos Indivíduos

As relações, princípios e problemas


Para tentar explicar as características essenciais da Arquitectura e do objecto de Arquitectura, tentarei analisar o que se passa na vida contemporânea, estabelecendo um paralelo com a situação actual da Arquitectura e com a sua importância, caracterizando sobretudo o porquê da sua não aplicação, terminando com uma possível resolução dos problemas.

Assistimos hoje em dia a um mundo cada vez mais violento, mais irracional, mais desumano. O mundo é gerido pelas leis do mercado, pelo poder, pela globalização, pela uniformização e pela especulação financeira. A partir da Revolução Industrial, o Homem torna-se num animal de trabalho – o sentido da sua existência já não é a criação do Mundo, já não é sequer a criação de objectos eternos que constroem o mundo, é a criação de bens de consumo que se destinam a ser substituídos por outros. A aceleração do tempo inicia-se, e surge a contestação do passado. Uma das premissas do Movimento Moderno era mesmo a ideia de que devemos negar o passado, redefinir o modo de apropriação do espaço, criar “uma nova condição de urbanização do espaço habitacional, assente nos novos estatutos de mobilidade versus imobilidade, e nos novos conceitos de telepresença, redes de comunicação, informação e media”[1]. A vontade absurda de criar algo novo traduz-se numa particular vontade de esquecimento. A Arquitectura (cuja importância para o ser humano veremos depois) tenta, agora, inventar-se a partir do zero. Posto isto, sabemos que a Arquitectura perde o seu lugar na sociedade, sendo substituída, sobretudo, pelo Design e pela Engenharia. Os próprios ditos “objectos de Arquitectura” não são mais que objectos de consumo[2]. A estética é agora baseada na festa, na exuberância, no espectáculo que representa a vida. A vida, de facto, já não é mais que isso: uma representação exterior que esconde a apatia, a desolação e a confusão interior, e tudo isto resulta numa desumanização da sociedade e da Arquitectura, Como alguém que não tem passado, não tem raízes, não sabe para onde ir porque não sabe de onde vem, o Homem esconde-se. O resultado está à vista de todos[3].

Muitos são os autores que falam desta desumanização nas suas obras. Na literatura temos Huxley (com O Admirável Mundo Novo), Orwell (com 1984) ou Bradbury (com Farenheit 451). Na música, Pink Floyd (sobre a 2ª Grande Guerra) ou Massive Attack (sobre a Revolução Francesa e sobre a relação do indivíduo consigo mesmo). No cinema, Ridley Scott (com Blade Runner) ou Andy e Larry Wachowski (com Matrix). Na Banda Desenhada, Enki Bilal (com a Trilogia de Nikopol). Entre outros. Estes artistas não falam de assuntos do imaginário ou do irreal. Estas obras são profundos diagnósticos da época em que vivemos. E em todas elas casos há algo que as une, um fio condutor: o problema da memória – ou, pelo menos, da difícil relação do Homem Moderno com o seu passado. De facto, é na memória que reside a própria essência humana, a sua identidade. A memória é o que faz o ser humano. A memória é, antes de tudo, aquilo que nos permite reconhecer o mundo e reconhecer-nos no mundo: “Mas é a memória dessas coisas – ou melhor, da experiência dessas coisas – que me permite reconhecê-las ou evocá-las como coisas... deste mundo”[4]. A memória é o que nos permite identificar e interpretar o mundo, ou melhor, a interacção do que se passa à nossa volta connosco mesmos, através de experiências passadas. Tomemos como exemplo um doente de Alzheimer: os pacientes tornam-se impulsivos, pois não tendo memória, não podem analisar e comparar o acto presente com situações passadas. Surgem acções violentas ou de irascibilidade, seguidas por momentos de apatia e melancolia[5].

Com esta ideia em mente, podemos então perceber a importância das Artes – e sobretudo da Arquitectura – na vida humana através das palavras de John Ruskin: “There are but two strong conquerors of the forgetfulness of men, Poetry and Architecture; and the latter in some sort includes the former, and is mightier in its reality”[6]. Temos quatro ideias fundamentais nesta frase: em primeiro lugar, Ruskin refere que a Arquitectura conquista a memória. Reportando-me às obras anteriormente faladas, especialmente aos livros 1984, O Admirável Mundo Novo e Farenheit 451, e ao filme Matrix, podemos perceber que a luta do Homem pela memória é a sua luta eterna pela sua identidade e contra o poder. Nestas obras a sociedade apresenta-se completamente alterada e escravizada, onde há um desaparecimento da capacidade crítica, incapacidade de viver em sociedade, comportamentos de violência ou, por oposição, de apatia. Isto porque nalgum momento da história a memória foi alterada, através da alteração dos seus instrumentos, daquilo que a suporta (em Matrix atinge-se o limite: a memória dos seres humanos é artificial e manipulada pelas máquinas. Os seres humanos que vemos ainda ligados à “Matrix” não passam de baterias que fornecem energia às máquinas, não sendo, portanto, humanos). Assim sendo, uma sociedade sem Arquitectura (o grande conquistador da memória) é uma sociedade escravizada (uma sociedade onde os indivíduos não têm identidade). Em segundo lugar, porquê a Arquitectura e a Poesia, e não a História? Aqui, o factor de maior importância é que a boa memória não está ligada à distância até onde vai, mas à força, à vivacidade com que reporta as recordações. E isso apenas as artes podem fazer, apenas a arte eu me consigo ver reflectido, assemelho-me à obra que está à minha frente, sinto-me introduzido na história, não sou um mero observadores.[7] “A Arte (ou a Poesia) e não a História, é pois o principal defensor da Memória: porque só ela tem a capacidade de voltar a suscitar, de re-presentar a mesma total participação do Eu que no Passado determinou a minha identidade (...) A História tem a capacidade de enunciar os conteúdos do Passado, mas não de os fazer re-acontecer”[8]. No terceiro aspecto, Ruskin diz-nos que a Arquitectura é mais forte que a Poesia. Porquê? Isso não está apenas ligado à sua durabilidade ou ao seu carácter público (apesar de que estes dois factores são, na realidade, bastante importantes para a sua importância numa sociedade). Esta força está também ligada a uma característica que a Arquitectura deve possuir e da qual falarei mais pormenorizadamente: a capacidade de recolher e de acolher o Homem. Esta característica essencial da Arquitectura está ligada ao quarto, e último, factor: porque é que a Arquitectura engloba as outras artes e não está apenas inserida nelas? Precisamente devido à sua capacidade de recolher e acolher o Homem. Porque só estando num espaço que me protege, que me assegura a sobrevivência, é que eu posso abandonar-me e sentir-me arrebatado pela arte.

Ruskin acrescenta ainda que todos temos dois deveres para com a Arquitectura: preservá-la (para que ela continue a defender-me), mas preservar apenas o que deve ser preservado; e tornar a Arquitectura contemporânea em histórica (dar-lhe a capacidade para reter a memória). Em primeiro lugar, esta preservação da Arquitectura terá de ser uma preservação ponderada, crítica. É necessário reconhecer a realidade e assimilá-la, entender o que é que ela tem para mim, recorrendo à experiência da Arquitectura do passado e percebendo o que se mantém actual[9]. Entramos, então, no âmbito da tradição[10]. A tradição servirá, também, para cumprir o segundo dever para com a Arquitectura. Mas que significa tornar a Arquitectura contemporânea em histórica? Significa torná-la intemporal, torná-la parte activa da memória da sociedade. Significa torná-la em Monumento[11]. Ruskin diz-nos, então, que devemos não só preservar os Monumentos que já existem, como devemos criar novos. Parece-me, devido à importância da memória, e consequentemente da Arquitectura, na vida do Homem, que estes deveres são bastante importantes para o próprio ser humano. Mas, então, porque são estes Monumentos tão importantes para a memória?

Antes de responder à pergunta, é importante que se refira uma característica essencial da Arquitectura, já falada anteriormente: a de acolher e recolher o Homem. É importante aqui mencionar os estudos de Heidegger, de onde retiro as seguintes conclusões: “A palavra do antigo alto alemão para construir, «buan», significa habitar (...) Construir, buan, bhu, beo é, a saber, a nossa palavra «sou» (...) O modo como tu és e eu sou, a maneira segundo a qual nós homens somos sobre a Terra é o Buan, o Habitar (...) Habitar, ser posto em paz, quer dizer: permanecer vedado no Frye, i.e. no livre, o que preserva qualquer coisa na sua essência. O traço fundamental do Habitar é este preservar”[12]. Percebemos então que o habitar é um traço fundamental do ser humano, é a forma como este se dispõe no mundo e se relaciona com o espaço, ou seja, se deposita no real (lembro que, como disse anteriormente, a memória é o instrumento que nos permite identificar o que se passa à nossa volta através de experiências passadas e, como tal, é também uma ferramenta essencial a este habitar). Entendemos, também, que uma das características fundamentais do habitar é o preservar, o manter intacto, incólume e inalterado. O Homem manifesta-se nas coisas, mas essas coisas têm de possuir as características necessárias à sua preservação. É, então, a habitação (como utensílio, não único, mas essencial ao habitar) que me permite “ser” como eu “sou”. A existência do lugar que me permite habitar é essencial para mim e para a minha existência. Emmanuel Levinas ajuda-nos a perceber melhor a importância deste espaço habitável, ou, como o próprio intitula, a morada[13] [14]. A morada tem duas funções essenciais: a de acolher o Eu e a de o lançar para o mundo, pois ela é uma espécie de âncora, ou melhor, espaço de fuga para onde eu posso sempre voltar, mas que ao mesmo tempo, precisamente por isso, me permite sair para o mundo. É um lugar de segurança porque me oferece guarida, preserva-me. Nesta morada o Eu pode concentrar-se em si mesmo, pode baixar a guarda, pode voltar-se para dentro, pois está protegido, não só das intempéries como também da corrosão do tempo. “A verdade é que, faça o homem o que fizer, tudo o que ele faz tem por fim anular o tempo, suprimi-lo, e a esta supressão se chama espaço”[15]. Além disso, a morada é, também, a apresentação do Eu ao mundo, a sua representação exterior. A morada é, em primeiro lugar, um ninho, e, em segundo lugar, uma couraça. A morada não é morada se não cumprir as duas funções, o abraçar e o representar[16]. Não existe, então, morada sem habitar, tal como não existe um habitar pleno sem morada. E é aqui que morada se funde com monumento. É precisamente a capacidade de acolher o Homem, a capacidade que a Arquitectura tem para permitir o encontro do Eu consigo mesmo, para permitir habitar, que a torna tão importante para a memória: a Arquitectura como monumento é um veículo para a memória, activa a memória do Eu quando lhe permite reflectir sobre si próprio (e, como tal, sobre as suas memórias, pois elas são a única parte objectivável no ser humano). É através da relação de afectividade, amizade mesmo, entre o Homem e a sua morada que lhe permite depositar a sua própria identidade no espaço que habita. A Arquitectura torna-se participante em mim, une-se, funde-se comigo e eu dou-lhe, mostro-lhe, deposito nela aquilo que eu tenho, que eu sou. E, ao fazê-lo, quando voltar a entrar em contacto com essa Arquitectura, tudo o que nela depositei voltará a existir[17].

Pretendeu-se, aqui, estabelecer um paralelo entre a degradação da sociedade moderna com a degradação dos valores da Arquitectura, fixando, explicando e unindo as características que compõem aquilo que considero ser a essência da Arquitectura, aquelas que são, de facto, as ferramentas que a Arquitectura deve usar para responder às necessidades primordiais do Homem: o seu trabalho com a memória, o seu carácter monumental e a sua obrigatoriedade em ser morada. É, também, importante perceber que nunca na sua história o Homem rejeitou a Arquitectura como o faz agora, precisamente porque ela deixou de responder a estas necessidades. Ainda, isto não é motivo para que os Arquitectos se afastem da sociedade, ou, por outro lado, tentem ensinar às pessoas como viver ou como habitar. Não. Isto é um motivo para que os princípios da Arquitectura voltem a ser postos em cima da mesa, discutidos e clarificados. E não me refiro aos problemas estéticos ou construtivos. Esses já são suficientemente debatidos e, porque o conhecimento de Arquitectura se apresenta confuso, não são consensuais. É necessário voltar a pensar sobre a essência da Arquitectura: compreender que a Arquitectura não nasceu na caverna ou na cabana, mas no menir, no acto de tornar um espaço do mundo “meu”, de cosmificar o caos[18]; entender que essa Arquitectura evoluiu e que tem de proporcionar abrigo; saber que o objectivo último da Arquitectura é sempre o servir o habitar do Homem. Perceber que estes três parâmetros devem coexistir em cada obra arquitectónica: a parte técnica do programa, a funcionalidade e utilidade que devemos proporcionar; a parte simbólica, ligada ao acto de erigir um menir; e a parte viva do objecto, que proporciona o habitar[19]. Finalizando, penso que nos encontramos num período onde o trabalho dos arquitectos ganha enorme importância, não apenas no acto de fazer Arquitectura, mas no acto de pensar Arquitectura. Num período onde se diz que a Arquitectura morreu, eu penso que a Arquitectura nasce, precisamente porque nos apercebemos da sua morte.

[1] Francisco Nascimento Oliveira «Metáforas de um Novo Habitar» in Arquitextos 01. Alto da Ajuda: Centro Editorial da Faculdade de Arquitectura, 2007; p. 105.

[2] “Lembro Gropius, depois de visitar minha casa nas Canoas: “Sua casa é muito bonita mas não é multiplicável.” E eu a olhá-lo condescendentemente, pensando: “Como se diz bobagem com ar de coisa séria.” - Oscar Niemeyer - Conversa de arquitecto. Porto: Campo das Letras - Editores S.A., 1997; p. 14

[3] “O processo ideológico que se está a verificar promove o encaminhamento para análises lógicas e críticas da arquitectura, através de uma reflexão sobre ideias remetidas à expressão de símbolos, individualistas ou imaginários, havendo uma ruptura com o passado e uma atitude de afastamento dos problemas, à semelhança da avestruz que mete a cabeça na areia (…) As causas da arquitectura são abaladas e as definições das imagens ficam limitadas ao prazer das sensações (…) Nesta panorâmica, passa-se a dar mais atenção aos problemas ideológicos e políticos que nos rodeiam do que propriamente à existência da vida em comum com os seus problemas intelectuais e culturais (…) Estas preocupações alteram a relação entre o homem e a arquitectura, nas suas tendências culturais, para se dirigirem mais ao lazer e a outras actividades (…) É nesta perspectiva que as imagens de arquitectura estão a ser o retrato de uma civilização alienatória, onde as proposições do espírito crítico e moral apresentam uma estrutura sem história e assinalam um estado de produção económico em que todos somos párias (…) Esta nova teoria do conceito de capitalismo revela uma tendência que provoca a descodificação e a desterritorialização, produzindo na produção social e no homem uma esquizofrenia” - Victor Consiglieri - As metáforas da arquitectura contemporânea. Lisboa: Editorial Estampa, Lda., 2007; pp. 29-33

[4] José D. Gorjão Jorge – Lugares em Teoria. Casal de Cambra: Caleidoscópio, 2007; pp. 10-11.

[5] Pedro Marques de Abreu «Arquitectura: Monumento e Morada» in Arquitextos 04. Alto da Ajuda: Centro Editorial da Faculdade de Arquitectura, 2007; pp. 12-13.

[6] John Ruskin – The Seven Lamps of Architecture. VI-Lamp of Memory

[7] “ Um dia - John calculava que devia ter sido pouco depois do seu décimo segundo aniversário - entrou em casa e encontrou no chão, no quarto de dormir, um livro que ainda não tinha visto (…) O livro intitulava-se Obras Completas de William Shakespeare (…) Ele abriu o livro ao acaso: “Não, mas viver / No suor fétido de um leito imundo, / Imerso em corrupção, a fazer carícias e a amar / Sobre a pocilga asquerosa…”. As estranhas palavras rolaram-lhe através do espírito, ressoando como um trovão falante, como os tambores das danças de Verão, se os tambores tivessem podido falar”. Aldous Huxley - O Admirável Mundo Novo. Lisboa: Colecção Mil Folhas PÚBLICO, 2003; p.136.

[8] Pedro Marques de Abreu «Arquitectura: Monumento e Morada» in Arquitextos 04. Alto da Ajuda: Centro Editorial da Faculdade de Arquitectura, 2007; p. 16.

[9] Henri Matisse «Há que ver toda a vida com olhos de criança»

[10] “É a tradição, conscientemente abraçada, que oferece uma totalidade de visão sobre a realidade (...) A tradição, de facto, é como uma hipótese de trabalho, com a qual a natureza lança o homem na comparação com todas as coisas” Luigi Giussani – Realtà e giovenezza. La Sfida. Torino: SEI, 1995; p. 165.

[11] O significado de Monumento que aqui uso provém do latim, monumentum, que significa recordação, e não o seu significado contemporâneo de “edifício imponente pela sua beleza, grandeza ou antiguidade”.

[12] Martin Heidegger – Contruir, Habitar, Pensar [Bauen, Wohnen, Denken]. In Martin Heidegger, Vorträge und Aufsätze. Pfullingen: Günther Neske, 1954. pp 145-162

[13] Emmanuel Levinas – Totalidade e Infinito, A Morada. pp. 135-165

[14] Sublinhando a importância desta morada para a vida humana, Aldous Huxley refere-a em O Admirável Mundo Novo, quando Mustafa Mond dirige-se a um grupo de cientistas
(pertencentes ao tipo de sociedade falada anteriormente) e pergunta: “-E sabem o que era um lar? Sacudiram a cabeça negativamente”.Aldous Huxley - O Admirável Mundo Novo. Lisboa: Colecção Mil Folhas PÚBLICO, 2003; p.48.

[15] Hermann Broch – Os Sonâmbulos: Degradação de Valores (3). Lisboa: Arcádia, 1965. pp. 432-433

[16] Victor Hugo explica bastante bem esta relação entre a morada e o ser humano na sua obra Notre Dame de Paris, quando se refere à relação entre Quasímodo e a Catedral: “Com o tempo tinha-se formado não sei que laço íntimo, que prendia o homúnculo à igreja (…) Notre Dame, à medida que ele crescia e se desenvolvia, fora sucessivamente para ele o ovo, o ninho, a casa, a pátria, o universo (…) Foi assim que, desenvolvendo-se pouco a pouco, sempre no meio da catedral, vivendo, dormindo e quase nunca de lá saindo, experimentando a todo o instante uma pressão misteriosa, chegou a assemelhar-se-lhe, a embutir-se-lhe, por assim dizer, e a fazer parte integrante dela. Os seus ângulos salientes encaixavam (perdoe-se-nos a figura) nos ângulos reentrantes do edifício, parecendo dele não só o habitante, mas também o seu conteúdo natural (…) Era a sua morada, a sua toca, o seu invólucro. Havia entre a velha igreja e ele uma simpatia instintiva e tão profunda, tantas afinidade magnéticas, tantas afinidades materiais, que di-lo-iam aderido ao templo como a tartaruga à carapaça. A rugosa catedral era a sua casa” Victor Hugo - Notre Dame de Paris. Livro IV, Capítulo III - “Imannis Pecoris custos, immanior ipse”

[17] Esta ideia da Arquitectura como depósito das memórias está fortemente presente na obra de Jorge Luís Borges - “O Cativo”.

[18] “Um território desconhecido, estrangeiro, desocupado (…) participa ainda na modalidade fluída e larvar do «Caos». Ocupando-o e, sobretudo, instalando-se. O homem transforma-o simbolicamente em Cosmos mediante uma repetição ritual da Cosmogonia”. Mircea Eliade - O Sagrado e o Profano - A Essência das Religiões. Lisboa: «Livros do Brasil», 2002; p. 45.

[19] José D. Gorjão Jorge – Lugares em Teoria. Casal de Cambra: Caleidoscópio, 2007; p 99.