28 de abril de 2008

Avante Camarada Vasco!

Numa crónica escrita no passado sábado, sobre "O 25 de Abril", li das maiores pérolas dos últimos tempos. Vasco Pulido Valente afirma-nos, na sua crónica, que "Tirando as leis que instituíram a democracia, o PREC não deixou uma única reforma necessária e durável". Ora bem, isto fez-me lembrar uma célebre passagem dos Monty Python, em A Vida de Brian, (a mim e ao Rui Tavares, como ele tão bem descreveu no Público) quando uma das personagens pergunta "Mas afinal que fizeram os romanos por nós?" e alguém sugere "o aqueduto", "os esgotos", "as escolas", "o vinho", "banhos públicos", "segurança à noite" e por aí em diante. E o primeiro replica, irritado, dizendo "está certo, mas tirando os aquedutos, os esgotos, as escolas, as estradas, a segurança, o comércio e todas essas coisas, que fizeram os romanos por nós?" A resposta de Pulido Valente tem ainda mais piada que os próprios Monty Python.

Ou seja, segundo Pulido Valente, tirando as leis que instituíram a democracia (por outras palavras, as eleições livres, o direito ao voto, a imprensa sem censura, diversos partidos políticos, extinção da polícia política, fim da tortura e dos presos de opinião, liberdade de manifestação e associação), que fez o 25 de Abril por nós? Nada.

Segundo Vasco Pulido Valente, a revolução não foi mais que a mostra do atraso português, uma vez que na "Europa civilizada e "desenvolvida" ou "semidesenvolvida", como tão bem descreve, as revoluções tinham terminado em 1848. Eu realmente também acho... camaradas, se é para fazer uma revolução façam-na quando elas ainda estão na moda. Hoje em dia já não se usam as calças-à-boca-de-sino pois não? Vamos lá a ter juizinho e utilizar as novas tendências quando elas aparecem, se faz favor.

Mais, Pulido Valente afirma: "Foi por isso que o 25 de Abril teve tanto de teatral. Consciente ou inconscientemente, as figuras do drama, ou do melodrama, copiavam uma tradição", referindo-se a este "fora de moda" das revoluções. Ora bem, da última vez que pensei nisto, usar o passado para o nosso próprio bem é uma coisa muita porreira, porque se resultou com eles é provável que resulte connosco também, não? Se de facto é possível comparar a chegada de Álvaro Cunhal com o discurso em cima da Chaimite com a chegada de Lenine à estação da Finlândia, é porque o Álvaro Cunhal era um homem inteligente e usa, ou copia mesmo, os padrões de um dos maiores discursantes da história para os seus próprios discursos. Esta coisa da História dá imenso jeito.

Então alguém replica: "E a guerra?". "O abandono de África não provocou nenhuma resistência interna, provando a artificialidade (e a fragilidade) do imperialismo indígena" diz-nos Pulido Valente. Realmente, tirando 13 anos de "nenhuma" resistência interna e a "artificialidade" de uns milhares de indígenas mortos temos o quê? Nada. Voltando então ao que nos deixou o PREC, parece-me então que a universalização das pensões de reforma, a generalização das férias pagas e o Serviço Nacional de saúde não cabem na definição de "necessárias e duráveis" de Vasco Pulido Valente. Ou seja, a diminuição enorme da mortalidade infantil, as pensões para cerca de 1 milhão de velhotes, a malta toda que foi para férias (que podem não ser muito duráveis, mas para muitos necessárias para os dias que hoje vivemos) sem ser "a salto", os jovens que não foram à guerra e lotaram as Universidades não são propriamente casos a ter em conta...

Não estou a dizer que a Revolução foi a melhor coisa que aconteceu a este país. É óbvio que estava mal preparada, que deixou muitas lacunas, muitos problemas e uma estrutura fraca que se vem deteriorando, mas parece-me que foi, de facto, um "mal" necessário. Também é verdade que todas as coisas boas que surgiram da do 25 de Abril já vinham de antes, mas também em qualquer revolução há sempre coisas que vêm antes e outras que vêm depois. É óbvio que a entrada de Portugal para a UE e o 25 de Abril não são a mesma coisa, mas duvido muito que tivéssemos chegado a uma coisa sem a outra.

Resumindo, de facto Vasco Pulido Valente tem alguma razão quando diz que a esquerda comunista não conseguiu acabar o que começou e não cumpriu, pelo menos a longo prazo, aquilo que prometeu. A questão é que questionar e menosprezar a necessidade da Revolução do 25 de Abril quando e como se deu é impensável. A importância da revolução na libertação de um povo oprimido, fechado do mundo, inculto e, regra geral, bastante maltratado, é inquestionável. É certo que o Antigo Regime não era tão fortemente opressor, manipulador e avassalador quanto muitos o querem pintar. Ainda assim.

27 de abril de 2008

26 de abril de 2008

Wake up and smell the coffee

A KSM (União da Juventude Comunista Checa) foi, finalmente, ilegalizada. Esta é uma situação chocante, que se vem arrastando desde 16 de Outubro de 2006, sendo consecutivamente travada através da luta de dezenas de associações democráticas mundiais, parlamentos e sindicatos, nomeadamente a Federação Mundial de Juventude Democrática, ou o incontornável Bono Vox.


O Ministro dos Assuntos Internos Checo usou vários argumentos para a dissolução da KSM, começando por dizer que as acções da associação interferiam numa área restricta a Partidos Políticos. Depois, invocou que a união era ilegal porque era baseada nas teorias de Marx, engels e Lenin e proclamava a necessidade de uma revolução socialista. Ainda assim, quando estes argumentos foram constantemente travados (por razões óbvias, uma vez que o primeiro era apenas uma desculpa e o segundo profundamente anti-democrático), a dissolução da KSM foi, oficialmente, devida apenas ao facto de o programa da União reflectir a necessidade de substituir a propriedade privada dos meios de produção por propriedade colectiva. Este argumento é, possivelmente, o mais anti-democrático dentre todos os que foram usados pelo Ministro dos Assuntos Internos da República Checa, uma vez que não pode ser proibido este tipo de reivindicações a uma sociedade política legal. Serviu apenas para espalhar o pânico entre os deputados e entre a própria população, sendo que esta última manteve-se do lado da KSM, uma vez que a própria população criou um abaixo-assinado reivindicado por milhares.

Esta não é uma situação que possa passar ao lado dos portugueses. Com tudo o que se passa fora do nosso país, mas também dentro (lembrem-se do caso do PNR, para percebrem que isto não se passa apenas contra os comunistas, ou das tentativas de privatização das Universidades públicas) não podemos achar que estas coisas nunca nos vão tocar, que apenas se passam nos países que estão longe de nós e que nada nos afecta (recordem-se que a República Checa é um país da União Europeia, que nada fez sobre este assunto, apesar da vontade de vários parlamentos nacionais, incluíndo no nosso, que foi fortemente repreendido por um Partido, supostamente, de esquerda, o PS). Não pude deixar de referir este assunto.

http://www.jcp-pt.org/noticias.php?id=408&categoria=5&categoria2=0&categoria3=0

http://www.joventutcomunista.org/arxius/noticia/docs/Dissolucio_de_la_KSM.pdf

22 de abril de 2008

de Léon Jaussely

Este excerto é retirado da memória descritiva de um projecto para o concours Chenavard, "Um Centro Social na Metropolis de um Grande Estado Democrático", no ano de 1900:

"The progress and application of science and modern technology will modify the present composition of society (allowing man more independence and leisure) - advancing humanity toward the realization of spiritual liberation through social education"

Léon Jaussely, nascido a 1875



Não pude deixar de sorrir ao perceber que alguém que nasceu um século antes de mim poderia partilhar da minha opinião e exprimi-la da mesma forma (mais eloquente, obviamente):

"É nosso dever lutar por uma sociedade iluminada. Aqui penso que a tecnologia vai desempenhar um papel importante, ocupando-se das tarefas que não necessitam de ser feitas pela mão humana."

(Devaneios de um estudante de Arquitectura II, 9 de Abril de 2008)




Fico triste ao perceber que de facto a visão de Jaussely (e de outros homens) não se cumpriu, e que a tecnologia nos trouxe onde estamos presentemente.

20 de abril de 2008

On my shoulders - The Dø

Why would I carry such a weight on my shoulders?
Why do I always help you carry your boulders?
You wonder why I carry such a weight on my shoulders
And why would I tttts such a load

Cos someday you'll see
Next time I'll try it another way

Why would you try to make me friends with them soldiers
When you know that I've never been familiar with orders
When you know that my heart is in a pretty disorder
And you should know that in my heart you fill every corner

And someday you'll see that all I want is to please
Next time I'll try it another way

How long will I sit and wait like a soldier?
How many summers will it take?
How many summers will I wait?
How many shoulders will I break?

Why would I carry such a weight on my shoulders?
Why am I always by your side when you're down?
Why did I help you build a beautiful house?
And why did I break my back for you in the cold?

Cos someday you'll see
Next time I'll try it another way

Why would I have to quit if time makes me older
Why do they wonder why I never get bored?
How could I tell them that I'll never let go
But hey, you're my man but they just won't understand

Cos someday you'll see
Next time I'll try it another way

How long will I sit and wait like a soldier?
How many summers will it take?
How many summers will I wait?
How many shoulders will I break?

Why would I carry such a weight on my shoulders?
Why do I always help you carry your boulders?
You wonder why I carry such a weight on my shoulders
And why would I tttts such a load

Cos someday you'll see
Next time I'll try it another way

How long will I sit and wait on that boulder?
How many summers will I wait?

19 de abril de 2008

Mil Novecentos e Oitenta e Quatro

Quase com a mesma ligeireza, ela tirou a roupa e, quando a atirou para o lado, foi com aquele gesto que parecia aniquilar toda uma civilização.

George Orwell ( Eric Arthur Blair), Mil Novecentos e Oitenta e Quatro.

Comoção

Deêm-me a obra completa de Whitman, todas as árias de Bach e os mais surpreendentes pratos do chef Melo - nenhum deles conseguirá comover-me como aquele preto que levou a mulher a jantar.

Joel Neto, in NS' 19 de Abril de 2008

16 de abril de 2008

Democracia, por Ana de Amsterdam

A democracia é o melhor dos sistemas políticos. Mas presta-se a cada vexame.

Chuva

Ia escrever alguma coisa. Porque está a chover e eu gosto de chuva. Gosto de senti-la a escorrer pelos cabelos, pela cara, pelos braços. Gosto de sentir a roupa colada ao corpo. Mas não quero escrever sobre isso. Vou só ficar a ouvi-la lá fora, anulando todos os outros sons. Não se ouve vivalma. Achei que devia dizê-lo.

9 de abril de 2008

Devaneios de um estudante de Arquitectura II

Já há muito que ando a prometer a mim mesmo escrever algo mais sobre o que tem dominado os pensamentos, aprofundando um pouco o que já tinha dito anteriormente. Aqui vai algo de aleatório. Começando pelo início:

Para mim, a raça humana tem um objectivo. Para mim esse objectivo será algo como a iluminação, o Nirvana, o estado de consciência total. Chamem-lhe o que quiserem. Eu chamo-lhe perfeição. E, para mim, quando a civilização atingir esse estado, ela chegará ao seu fim. Terminará. Não sei se num instante, se ao longo de vários anos ou gerações, mas parece-me ser o final lógico. Com o objectivo concluído não há necessidade de continuação e, logo, a reprodução deixaria de ter sentido, pois nunca necessitaríamos que os nossos filhos continuassem a nossa obra, por assim dizer. Esta ideia é algo limitada, mas de momento ainda não consigo fundamentar mais.

Contudo, isto não quer dizer que o Homem atinja de facto o seu objectivo. Penso que nos cabe a nós tentar conduzir a civilização a esse objectivo pelo caminho que considerarmos mais correcto. É óbvio que ninguém sabe o que de facto está certo ou errado, mas podemos sempre fazer o que consideramos ser melhor. Este é o nosso dever.

Aqui a Arte parece-me ter um papel importantíssimo. Para mim, é a Arte com a qual entramos em contacto que nos vai desenhar como pessoas, que nos ensina a relacionarmo-nos com os outros e com o mundo. Podemos ver que as pessoas com menos contacto com a Arte são as que têm mais dificuldade em relacionar-se com o resto do mundo e, pior ainda, não sabem distinguir o bem do mal. Penso que isto não seja coincidência e que o défice de valores causado pelo distanciamente em relação à arte possa estar na génese deste problema. Os valores destas pessoas são transmitidos pelas suas famílias ou comunidades, que, por sua vez, não tiveram acesso às Artes. Este ciclo vicioso tem de acabar, pelo bem da humanidade. "A salvação está nos proles".

É nosso dever lutar por uma sociedade iluminada. Aqui penso que a tecnologia vai desempenhar um papel importante, ocupando-se das tarefas que não necessitam de ser feitas pela mão humana. Contudo esta tecnologia tem de ser usada de uma forma ponderada. Penso que um dos grandes problemas do nosos tempo seja esta liberdade oferecida de bandeja pela tecnologia. Ela oferece-nos uma espécie de máscara que nos deixa fazer quase tudo sem que sejamos repreendidos ou observados. Isto vai ter grandes implicações ao nível da consciência. Outro problema que esta tecnologia tem provocado nas pessoas é a absoluta dependência que temos nela. Ao invés de ajudar o Homem a tornar-se mais livre, mais solto, para se encarregar das coisas que realmente interessam, através da sua estética, da sua simplicidade, do seu entretenimento, ela torna-nos absolutamente viciados, vegetifica-nos. Dá-nos tudo sem que precisemos de pensar, e o nosso cérebro não se desenvolve de uma forma saudável. Além disso, a tecnologia está na mão de pessoas limitadas que apenas pensam no seu próprio benefício, que trabalham para vender e que dão às massas aquilo que elas querem. Pelo que já referi antes, este não é, por vezes, o caminho a seguir. Ainda um último problema, e, possivelmente, o pior, uma vez que pode estar na génese de todos os outros: a desumanização das acções e dos objectos, a industrialização, o carro, o MSN, todas essas coisas que nos impedem de comunicar com o mundo e com os outros de uma forma tradicional e humana. Não me parece, de facto, que estejamos no bom caminho e não sei se alguma vez conseguiremos dar a volta a isto. Infelizmente.

Apenas mais um devaneio:
Aqueles que me conhecem sabem que acredito em alguns ideais comunistas. Acredito na utopia comunista. Acredito que é possível (e necessário) criar uma sociedade sem dinheiro, sem capital, sem propriedade de qualquer tipo, onde o homem trabalha para se cultivar física, espiritual e intelectualmente, e não para obter bens materiais ou poder. Estas coisas servem apenas a felicidade fútil, superficial, de algumas mentes tacanhas que, infelizmente, influenciaram e poluíram o mundo e que, hoje em dia, o dominam. As experiências socialistas tentaram ser um intermediário entre a nossa sociedade actual e essa sociedade ideal. Infelizmente, e como todos sabemos, falharam redondamente. Estas experiências não foram conduzida das melhor forma e, sem dúvida, não o foram pelas pessoas correctas. Penso que é possível comparar esta degradação de valores com algo que se tem passado com a Igreja: apenas os Homens são capazes de destruir algo de "divino", degradando e destruindo todos os ideais que alguns homens iluminados se esforçaram por construir. Ainda assim, penso que seja possível atingir esse patamar, tão necessário para que possamos atingir o nosso objectivo último.

Estes são os devaneios de um estudante de Arquitectura.