Numa crónica escrita no passado sábado, sobre "O 25 de Abril", li das maiores pérolas dos últimos tempos. Vasco Pulido Valente afirma-nos, na sua crónica, que "Tirando as leis que instituíram a democracia, o PREC não deixou uma única reforma necessária e durável". Ora bem, isto fez-me lembrar uma célebre passagem dos Monty Python, em A Vida de Brian, (a mim e ao Rui Tavares, como ele tão bem descreveu no Público) quando uma das personagens pergunta "Mas afinal que fizeram os romanos por nós?" e alguém sugere "o aqueduto", "os esgotos", "as escolas", "o vinho", "banhos públicos", "segurança à noite" e por aí em diante. E o primeiro replica, irritado, dizendo "está certo, mas tirando os aquedutos, os esgotos, as escolas, as estradas, a segurança, o comércio e todas essas coisas, que fizeram os romanos por nós?" A resposta de Pulido Valente tem ainda mais piada que os próprios Monty Python.
Ou seja, segundo Pulido Valente, tirando as leis que instituíram a democracia (por outras palavras, as eleições livres, o direito ao voto, a imprensa sem censura, diversos partidos políticos, extinção da polícia política, fim da tortura e dos presos de opinião, liberdade de manifestação e associação), que fez o 25 de Abril por nós? Nada.
Segundo Vasco Pulido Valente, a revolução não foi mais que a mostra do atraso português, uma vez que na "Europa civilizada e "desenvolvida" ou "semidesenvolvida", como tão bem descreve, as revoluções tinham terminado em 1848. Eu realmente também acho... camaradas, se é para fazer uma revolução façam-na quando elas ainda estão na moda. Hoje em dia já não se usam as calças-à-boca-de-sino pois não? Vamos lá a ter juizinho e utilizar as novas tendências quando elas aparecem, se faz favor.
Mais, Pulido Valente afirma: "Foi por isso que o 25 de Abril teve tanto de teatral. Consciente ou inconscientemente, as figuras do drama, ou do melodrama, copiavam uma tradição", referindo-se a este "fora de moda" das revoluções. Ora bem, da última vez que pensei nisto, usar o passado para o nosso próprio bem é uma coisa muita porreira, porque se resultou com eles é provável que resulte connosco também, não? Se de facto é possível comparar a chegada de Álvaro Cunhal com o discurso em cima da Chaimite com a chegada de Lenine à estação da Finlândia, é porque o Álvaro Cunhal era um homem inteligente e usa, ou copia mesmo, os padrões de um dos maiores discursantes da história para os seus próprios discursos. Esta coisa da História dá imenso jeito.
Então alguém replica: "E a guerra?". "O abandono de África não provocou nenhuma resistência interna, provando a artificialidade (e a fragilidade) do imperialismo indígena" diz-nos Pulido Valente. Realmente, tirando 13 anos de "nenhuma" resistência interna e a "artificialidade" de uns milhares de indígenas mortos temos o quê? Nada. Voltando então ao que nos deixou o PREC, parece-me então que a universalização das pensões de reforma, a generalização das férias pagas e o Serviço Nacional de saúde não cabem na definição de "necessárias e duráveis" de Vasco Pulido Valente. Ou seja, a diminuição enorme da mortalidade infantil, as pensões para cerca de 1 milhão de velhotes, a malta toda que foi para férias (que podem não ser muito duráveis, mas para muitos necessárias para os dias que hoje vivemos) sem ser "a salto", os jovens que não foram à guerra e lotaram as Universidades não são propriamente casos a ter em conta...
Não estou a dizer que a Revolução foi a melhor coisa que aconteceu a este país. É óbvio que estava mal preparada, que deixou muitas lacunas, muitos problemas e uma estrutura fraca que se vem deteriorando, mas parece-me que foi, de facto, um "mal" necessário. Também é verdade que todas as coisas boas que surgiram da do 25 de Abril já vinham de antes, mas também em qualquer revolução há sempre coisas que vêm antes e outras que vêm depois. É óbvio que a entrada de Portugal para a UE e o 25 de Abril não são a mesma coisa, mas duvido muito que tivéssemos chegado a uma coisa sem a outra.
Resumindo, de facto Vasco Pulido Valente tem alguma razão quando diz que a esquerda comunista não conseguiu acabar o que começou e não cumpriu, pelo menos a longo prazo, aquilo que prometeu. A questão é que questionar e menosprezar a necessidade da Revolução do 25 de Abril quando e como se deu é impensável. A importância da revolução na libertação de um povo oprimido, fechado do mundo, inculto e, regra geral, bastante maltratado, é inquestionável. É certo que o Antigo Regime não era tão fortemente opressor, manipulador e avassalador quanto muitos o querem pintar. Ainda assim.
28 de abril de 2008
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