Teoria da revitilização 2008/2009
Alexandre Álvaro
André Picaró
Patrícia Esteves
“Ali de pé, a obra arquitectónica resiste à tempestade que se abate com toda a violência, sendo ela quem mostra a própria tempestade na sua força. O brilho e a luz da sua pedra, que sobressaem graças apenas à mercê do Sol, são o que põe em evidência a claridade do dia, a imensidade do céu, a treva da noite. O seu seguro erguer-se torna assim visível o espaço invisível do ar. A imperturbabilidade da obra contrasta com a ondulação das vagas do mar e faz aparecer, a partir da quietude que é a sua, como ele está bravo.”
Martin Heidegger, A Origem da Obra de arte
“Nossa Senhora do Cabo
Seu caminho pedras tem
Se não fosse por milagre
Já cá não vinha ninguém”
“Senhora do Cabo
Do Cabo do mundo
Deitou um braço à terra
E outro ao mar sem fundo”
Quadras populares
Introdução
O presente trabalho, no âmbito da cadeira de Teoria da Revitalização, foca-se no Santuário de Nossa Senhora do Cabo (também designado por Nossa da Senhora da Pedra da Mua) e, através de uma leitura in situ e de pesquisa bibliográfica procura apreender a identidade do conjunto.Apenas conhecendo a especificidade de uma obra, se torna possível actuar sobre ela de maneira cordial, isto é, em concordância com a sua ontologia. Julgamos que a acção de restauro deve conter em si uma função revelativa, colocando em evidência a personalidade da obra arquitectónica; esta acção, apesar de estar submetida à teoria formulada com o processo de leitura, e mesmo que não deva ser puramente individualista, tem ainda assim um carácter artístico, não é absolutamente objectiva.
Nas páginas que se seguem, expomos aquilo que é o nosso estudo do Santuário do Cabo Espichel. Começamos por enunciar os dados naturais do lugar, procurando entender como seria antes da presença arquitectónica hoje existente, e de que maneira poderia dialogar com o Homem, influenciando o tipo de construção que aí seria erigida. Descrevemos depois, já considerando o actual conjunto edificado, o percurso típico de um transeunte, salientando o modo como a envolvente nele actua. Analisamos a intercorrespondência Arquitectura-Sítio-Homem e procuramos referenciá-la na forma, a escala e a linguagem do recinto.
Não ignoramos que a leitura que fazemos da obra é essencialmente subjectiva e que, perante outros elementos bibliográficos e outras circunstâncias – digamos, uma alteração na forma como o conjunto se nos apresenta – não pudéssemos ter obtido outro tipo de conclusões.
O Lugar
O planalto onde se situa o santuário é uma de três línguas de terra que avançam em direcção ao oceano, sendo que esta foi distinguida pelos homens de entre as outras já no Paleolítico (pelo menos três milénios antes de Cristo). Este facto deve-se muito provavelmente à conjunção de várias características geográfico-ecológicas, com repercussões nos sistemas visual e háptico no Homem; ao contrário do extremo onde actualmente se encontra um farol, que é inclinado e coberto de vegetação de médio porte, que impede a plena percepção do lugar, o planalto onde se encontra o Santuário é um terreiro plano e sem barreiras visuais, bem visível até aos seus limites; está mais exposto ao vento e o horizonte é mais amplo; a escarpa deste extremo em particular é mais íngreme que na restante costa. Tudo isto resulta num aspecto tão exaltado e, em simultâneo, tão limado que quase parece artificial, e eminentemente humanizável.
No entanto, apesar do seu carácter agressivo, é de salientar a facilidade em aceder ao Cabo. Todo o percurso até este lugar é quase plano, uma vez que, ao contrário de outros locais na costa portuguesa, não há uma diferença de cota acentuada entre o ermo e as povoações mais próximas; essa diferença dá-se no acesso às praias e não ao planalto. Esta é uma das características que distingue a sua situação da de outros cabos, como por exemplo a situação patente na Nazaré, onde é a praia o lugar de acesso privilegiado, sendo aí necessário subir até ao sítio onde se encontra o Santuário. Encontramo-nos, pois, perante uma situação paradoxal: a facilidade do percurso e o magnetismo do lugar opõe-se diametralmente à bravura dos seus ventos e à vertigem da escarpa.
As qualidades encontradas neste lugar seriam tão inexplicáveis para o homem primitivo que este lhe terá atribuído um carácter divino, demonstrando claramente que este era já um lugar notável e predisposto à cosmificação. Segundo o antropólogo Luis Marques, terão sido encontrados no Cabo Espichel artefactos paleolíticos (bem como de outras ocupações que se estendem até à época medieval), de entre os quais os de maior antiguidade guardam ainda um significado desconhecido; recorrendo sobretudo à decoração antropomórfica e zoomórfica tomavam, provavelmente, parte em funções ritualistas, religiosas ou magico-simbólicas. O mesmo autor refere ainda que “dada a dimensão e configuração de alguns dos objectos encontrados (...) claramente despojados de fins utilitários, sem correspondência com quaisquer tipos de necessidades primárias, todos remetem para práticas identitárias e religiosas, cujo simbolismo e valor imaterial suplanta, categoricamente, um eventual remotíssimo uso básico de substistência”. Mais ainda, sabe-se que no século XV houve uma doação da “hermida, e logar, e limite de Sancta Maria da Pedra de Mua, que he no cabo de Espichel, termo de Cezimbra”, com a finalidade de aí se construir um convento. No entanto, os dominicanos terão recusado a oferta por considerarem que “como o sitio he muyto aspero, & deserto, o largariaõ os Religiosos”. Tudo parece indicar que, apesar da sua singularidade e fascínio, o lugar era considerado inabitável. Seria então mais afecto às acções de excepção, mesmo dentro do âmbito religioso[1], do que a uma vida quotidiana.
O Santuário
A aproximação ao Santuário dá-se por uma estrada que serpenteia desafogadamente ao longo de uma paisagem sobretudo rural e pouco acidentada. As casas unifamiliares e discretas que ladeiam o caminho vão rareando gradualmente, até que, na vizinhança directa do Santuário, a presença de um aqueduto rasteiro que acompanha a estrada é o único sinal marcante da presença humana.
O primeiro indício visível do conjunto arquitectónico é o topo da igreja, o que desvenda de imediato o carácter consagrado do local. Logo depois o caminho abre, libertando o campo visual e descobrindo o arraial. No momento anterior à entrada na praça (que se faz lateralmente, a Sul) existe uma depressão no terreno que, uma vez ultrapassada, nos leva a sentir que já estamos no território do Santuário. Esta sensação é acentuada por uma assimetria entre as duas alas maiores da praça, em que a mais próxima está recolhida e a do lado oposto se prolonga, fechando a nossa visão sobre a falésia. Em simultâneo, a existência da Casa da Água, que encara a praça, devolve a nossa atenção sobre esta e limita visual e fisicamente o terreiro. Desta forma, entrar no recinto é um gesto natural, o que corrobora e acentua a original facilidade em aceder ao planalto.
A praça propriamente dita está delimitada pela repetição dos módulos de hospedarias que formam braços alongados a Norte e Sul. A Oeste ergue-se a igreja, (o que contraria a orientação habitual com o altar a Este), delineando o arraial nesse topo. No lado oposto está um cruzeiro que fecha simbolicamente a praça, entretanto mais concretamente rematada pela Casa da Água.
Este recinto corresponde às expectativas de quem entra, uma vez que é acolhedor, tanto pela sua forma como pela escala e linguagem. Para além disso, experimentamos uma eliminação substancial do vento e do som, o que confere ao arraial solenidade e uma aura de espaço interior. A fachada das hospedarias é composta, no piso térreo, pelo ritmo constante da arcada que suaviza a relação entre a horizontalidade do terreiro e a verticalidade da frontaria. Mediando o arraial e as lojas, a galeria amortece a ligação entre o espaço privado das hospedarias e a praça pública. Os arcos manifestam uma relação imediata com o corpo humano, que é transposta para as galerias. As arcarias, com a sua irregularidade, com variações em altura e largura, como se a sua génese tivesse sido biológica; os vãos de pequenas dimensões, com uma proporção quase quadrada, de feição saloia; os telhados com o sanqueado português característico que origina um encurvamento suave na terminação das coberturas (que se supõe terem sido, em tempos, todos de quatro águas); o facto de as hospedarias terem dois pisos e de cada módulo ter uma geometria depurada; as superfícies rugosas; todas estas qualidades formais e expressivas, usando uma linguagem identificável como saloia, conferem a um espaço de dimensão considerável um cunho humano, confortável. Com isto, o Santuário gera um recinto que se adequa às necessidades humanas, tanto individuais como comunitárias, num espaço até então inabitável. A própria presença da igreja, que encara e encabeça a praça, tanto em posição como em hierarquia, reforça a vocação pública e protectora do conjunto; sendo um templo, é por excelência a negação do Caos, vinculando em definitivo a cosmificação da praça. Deste modo, a arquitectura do conjunto do arraial elege as características do lugar que servem o seu propósito (a facilidade de acesso, a planura) e relega para um espaço ulterior as que não se adequam.
A saída da praça no sentido da falésia faz-se por duas passagens estreitas em arco, uma de cada lado da igreja. Este estrangulamento torna o embate com o exterior muito mais arrebatador. De súbito, todas as características mais pungentes do local, que não se ajustavam à identidade do arraial, dominam o espaço que lhe segue. O vigor das rajadas de vento; o ampliar do campo visual, que se estende agora, em quase todas as direcções, até à linha do horizonte, que nos mostra o quão bravio é o lugar onde nos encontramos; a desprotecção face ao abismo, com o recorte da escarpa em evidência; o som e a presença marcante do Oceano, que ganha importância à medida que nos aproximamos da encosta; a apreensão das características naturais do lugar é total. A única construção existente neste ermo é a singela Ermida da Memória. A Ermida é uma pequena construção de cariz quase escultórico, em que planta e alçados possuem medidas idênticas, o que, segundo José Manuel Fernandes, é “característica típica da arquitectura de geometria simbólica (...) [e] remete para a «caaba», o “cubo sagrado” do Islão”. A pequena edificação está dotada de um pátio exterior, debruçado sobre o declive. Na tradição árabe dá-se importância ao “pátio como «olhar para o Céu», como articulação Terra/Homem com Céu/Deus”. Verifica-se, no entanto, que há uma subversão deste princípio; neste caso, a vocação do pátio não é olhar para cima, mas olhar para baixo, para as vagas, e em frente, para o horizonte. A existência deste adro lançado sobre a paisagem oferece ao fruidor uma tribuna privilegiada sobre aquilo que o envolve, incluindo além do abismo, todo o planalto. Erigida três séculos antes das restantes edificações, a Ermida gozava de um isolamento total. Ainda hoje, apesar de não estar, de todo, isolada no local, a pequena construção goza de uma privacidade absoluta, ainda mais marcada após a construção do restante complexo, que lhe volta as costas. Inserida no terreno que fica para lá da praça, a Ermida traz ao de cima, com a sua presença cúbica embutida na topografia irregular, tanto os acidentes da paisagem como o isolamento que se experiencia.
Tal como a arquitectura saloia, com poucos e exíguos vãos e onde as próprias habitações e colectivos se viram para dentro, voltando às costas ao exterior, também o Santuário assume esta introversão. Apesar de ter sido construído para uso colectivo, propicia a meditação e o confronto com o eu, tanto no interior da praça como no exterior. Ainda assim, a interacção entre o indivíduo e o espaço é diferenciada: enquanto que o espaço exterior estimula e inquieta a pessoa, dando resposta a um desejo de infinito, o espaço interior da praça oferece protecção e faculta a interioridade.
É inquestionável que o Santuário se apresenta hoje como uma resposta directa às qualidades únicas do local. Apresenta uma resolução do paradoxo, anteriormente referido, plena de significação: adopta a facilidade de acesso ao local e enfatiza-a, trazendo as pessoas até ao seu âmago; de seguida empola o carácter exposto e a sensação de isolamento.
Os elementos constituintes do complexo dispõe-se segundo um eixo longitudinal com a direcção Este-Oeste. Esta linha imaginária principia no centro da fonte existente Casa da Água, atravessa-a cortando-a ao meio e segue descendo os cinco lanços de escadas que terminam num terreno baldio. Trespassa então um muro espesso e oblíquo relativamente ao eixo, que o intersecta num portal aí rasgado. As paredes desse portal não estão cortadas perpendicularmente ao paramento do muro, como seria expectável, mas em vez disso ligeiramente distorcidas, de maneira a que esse corte seja paralelo à linha reguladora do complexo. Esta última estende-se até ao cruzeiro, atravessa a praça pelo meio, desemboca exactamente no centro da fachada e daí alonga-se pela nave até ao altar. A organização longitudinal é facilmente inteligível por quem se acha no recinto, e a existência deste eixo é determinante no movimento horizontal induzido pelo conjunto dos edifícios. Desde o momento em que entramos no complexo, o ímpeto do nosso corpo é seguir, não só física, mas também visualmente, na mesma direcção eixo. Por exemplo, raras são as pessoas que atravessam a praça transversalmente. No espaço definido entre a igreja e a Casa da Água há uma influência forte da arquitectura que ordena os nossos movimentos e o nosso olhar; essa orientação é desfeita quando deixamos o terreiro e a linha imaginária deixa de ter seguimento. Contudo, a horizontalidade prevalece. Não há vontade nem razão para olhar para o céu, porque de imediato os nossos olhos se prendem na linha do horizonte (ou, em alternativa, no chão, numa atitude defensiva ao vento e às imprevisibilidades da topografia).
Esse gesto horizontal não é apenas físico. Conquanto o olhar se perde sobre o horizonte marítimo e nos lança sobre o desconhecido, os braços das hospedarias devolvem-nos à terra. Pode dizer-se que funciona de maneira bivalente: uma prancha de lançamento tanto para o absoluto, como para o material. Há uma justaposição de infinito e finito. Aqui, divino e profano, embora encontrados separadamente, são ainda assim complanares. O que distingue o Santuário de outras arquitecturas é que esta criação, ao mesmo tempo que responde pragmaticamente ao seu programa funcional, permite uma coincidência entre homem e infinito/finito num mesmo plano. Não se trata aqui de uma elevação do espírito, mas antes de uma invocação para o nível humano de tudo aquilo que, terreno ou divino, habitualmente não lhe pertence. O que esta arquitectura possibilita e mesmo facilita é a relação entre o físico e o metafísico de cada um. Sendo o homem composto por estas duas partes, é necessário que elas mantenham uma relação de concordância[2]. A singularidade do Santuário do Cabo Espichel reside precisamente na forma única como permite e potencia esta relação.[3]
Conclusão
Como vimos, quase todos os elementos relativos à forma, à escala e à expressão desempenham um papel importante para a identidade do Santuário e para a sua revelação, e não são, portanto, facilmente descartáveis ou substituíveis. Parece-nos indispensável conservar o traço popular e rústico, sobretudo nas hospedarias, através da manutenção das irregularidades dos vãos, arcos e superfícies. Não seria, porventura, benéfico desequilibrar a hierarquia entre a Igreja, as hospedarias e o terreiro, alterando-lhes o seu valor. Cada operação deve ter em conta a harmonia entre estas três partes e procurar perpetuá-la. Intervenções ou acrescentos à revelia do eixo e horizontalidade que referimos anteriormente devem ser postas de parte. Estes acrescentos não devem, ainda, interferir com a planura do local. É de evitar diferenças de nível na praça e na sua relação com o planalto que se lhe segue. Num hipotético restauro da praça é mandatório assegurar a aura de interioridade do espaço. Intervenções como a que ocorreu recentemente (em que a terra batida foi substituída por uma espessura considerável de gravilha) alteram profundamente o entendimento e a experiência do espaço, sendo que neste caso o silêncio e o conforto do andar foram mutilados. Também a relação entre a praça e as galerias foi deturpada por esta operação (actualmente os visitantes percorrem mais as galerias, onde os seus passos são mais fáceis, em detrimento da praça). Faria, porventura, sentido a existência de um tratamento diferenciado (ao nível do pavimento, dos vãos e das superfícies) entre o arraial e o espaço posterior, realçando o carácter confortável e humanizado do primeiro e o cariz incontido deste último. Neste espaço é de evitar a construção de quaisquer infra-estruturas de apoio ou outro elemento que quebre a pureza deste.
Como vimos, quase todos os elementos relativos à forma, à escala e à expressão desempenham um papel importante para a identidade do Santuário e para a sua revelação, e não são, portanto, facilmente descartáveis ou substituíveis. Parece-nos indispensável conservar o traço popular e rústico, sobretudo nas hospedarias, através da manutenção das irregularidades dos vãos, arcos e superfícies. Não seria, porventura, benéfico desequilibrar a hierarquia entre a Igreja, as hospedarias e o terreiro, alterando-lhes o seu valor. Cada operação deve ter em conta a harmonia entre estas três partes e procurar perpetuá-la. Intervenções ou acrescentos à revelia do eixo e horizontalidade que referimos anteriormente devem ser postas de parte. Estes acrescentos não devem, ainda, interferir com a planura do local. É de evitar diferenças de nível na praça e na sua relação com o planalto que se lhe segue. Num hipotético restauro da praça é mandatório assegurar a aura de interioridade do espaço. Intervenções como a que ocorreu recentemente (em que a terra batida foi substituída por uma espessura considerável de gravilha) alteram profundamente o entendimento e a experiência do espaço, sendo que neste caso o silêncio e o conforto do andar foram mutilados. Também a relação entre a praça e as galerias foi deturpada por esta operação (actualmente os visitantes percorrem mais as galerias, onde os seus passos são mais fáceis, em detrimento da praça). Faria, porventura, sentido a existência de um tratamento diferenciado (ao nível do pavimento, dos vãos e das superfícies) entre o arraial e o espaço posterior, realçando o carácter confortável e humanizado do primeiro e o cariz incontido deste último. Neste espaço é de evitar a construção de quaisquer infra-estruturas de apoio ou outro elemento que quebre a pureza deste.
Em termos funcionais, seria benéfico dar uso à vocação de recolhimento/confronto espiritual do Santuário. É um local adequado à realização de retiros ou outras práticas semelhantes, inseridos ou não num cânone religioso, e, como tal, essa opção deve ser estudada.
[1] “Desconhecendo-se ainda substancialmente os cultos pré-históricos que tiveram este santuário como referência, sabe-se, no entanto, que a essas práticas religiosas vieram a suceder institucionalmente as concepções islâmicas e cristãs, sob as quais persistiram tradições desinseridas dos respectivos cânones oficiais que, em parte, chegaram aos nossos dias, como é o caso dos Círios que actualmente continuam a frequentar autonomamente o recinto milenar.” – Luís Marques – O paraíso no «fim do mundo»: O culto de Nossa Senhora do Cabo. Lisboa: Sextante Editora, 2007. p. 271
[2] Kierkegaard, em “O desespero humano – Doença até à morte”, define o homem como “eu”. Esse “eu” é o relacionar-se consigo mesmo, é sobretudo o conhecimento que se tem de si depois de estabelecer a relação. Mais ainda, define o homem como síntese entre finito e infinito. O “eu” é a relação entre estes termos, como um factor positivo, com existência própria, uma vez que é necessário que, também, ambos os termos tenham existência para além da própria relação. Para ele, uma relação deste tipo é estabelecida por si ou por um outro, e se for através de um terceiro existe uma dependência do “eu” em relação a esse outro. Parece-nos que esta noção de “outro” está bastante presente na identidade do Santuário, uma vez que este é um grande facilitador deste tipo de relação.
[3] Seria interessante fazer, aqui, um paralelismo entre os dois paradoxos: o natural, que se relaciona com as características do Cabo Espichel, e o humano, enunciado por Kierkegaard. Este paralelismo prende-se com os dois limites dos paradoxos acima enumerados; parece-nos existir uma coincidência entre a resolução da facilidade em chegar ao lugar com a ligação telúrica do espaço do arraial, ao mesmo tempo que a resolução do carácter exposto e isolado do cabo parece ocorrer da mesma génese da ponte que se estabelece com o divino. Se, por um lado, temos uma ligação ao finito, ao terreno, ao conhecido, que torna o espaço da praça em “nosso”, totalmente cosmificado e humanizado, temos, por outro, uma relação com infinito, com o divino, com o horizonte, que exponencia o carácter ermo e desconhecido do espaço exterior do planalto.
Bibliografia
A.A.V.V. O Santuário da Nossa Senhora do Cabo no Espichel. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1964.
ELIADE, Mircea. O Sagrado e o Profano – A Essência das Religiões. Lisboa: Livros do Brasil, 2002.
FERNANDES, José Manuel; JANEIRO, Maria de Lurdes. Arquitectura vernácula da região saloia – enquadramento na área atlântica. Lisboa: Instituo de Cultura e Língua Portuguesa, 1991.
HEIDEGGER, Martin. A origem da obra de arte. Lisboa: Edições 70, 1999. pp. 32-33.
KIERKEGAARD, Søren. O Desespero Humano. Lisboa: Livraria Tavares Martins, 2008.
MARQUES, Gentil. Lendas de Portugal. Lisboa: Círculo dos Leitores, 1997.
MARQUES, Luís. O paraíso no «fim do mundo» - O culto de Nossa Senhora do Cabo. Lisboa: Sextante Editora, 2007.