17 de novembro de 2008

Estavam no Princípio do Mundo II

Passou-se meia hora e meia vida, olharam-se os quatro e voltaram para casa. Conversaram muito pouco durante a viagem, e apenas palavras estéreis sobre esta ou aquela música, ou sobre uma qualquer ocorrência no caminho, o rádio mal fazia as vezes do silêncio. Não falavam das histórias passadas em conjunto, esse tema tinha sido o principal dos últimos dias, mas não daquele. Não só aquilo que os esperava dominava os seus pensamentos, como o passado ainda era demasiado presente para que conseguissem contá-lo, agora que acabava. A sua vida comum, a sua amizade, os tempos de escola, todas aquelas pequenas coisas pareciam agora ainda mais pequenas, quase nada comparadas à grande muralha que tinham à sua frente, e no entanto sabiam que lhes eram mais preciosas. Eram homens e mulher com uma missão. Foi para isso que trabalharam, foi o caminho que prometeram seguir e disso foram incumbidos, escolhidos a dedo para uma senda solitária mas de pensamentos de bando. Esta noite cada um dormiria na sua própria casa, aproveitando para se despedir da família, amigos e vizinhos, do cão e do gato, da casa onde viveram a sua adolescência. No dia seguinte, como combinado, encontram-se no aeroporto três horas antes do voo do primeiro a partir. Marcaram os quatro voos para o mesmo dia, a horas semelhantes e com destinos completamente separados, Estados Unidos da América do Norte, Timor-Leste, Espanha e Reino Unido.

Nenhum deles dorme esta noite. Três quartos de hora depois das duas da manhã, Jonatas levanta-se, desliga o rádio e veste a roupa já posta de lado. Vai olhando devagar o seu quarto, como se fosse a primeira vez que ali estava estranhou o tom azulado que entrava pela janela azul de vidros azuis. Reparou pela segunda vez como era singular, borda escura, moldura e grade brancas que dividem seis pequenos vidros quadrados, todos diferentes, mas sempre azuis. Na cama a luz intensa da rua desenhava o caixilho e a claridade alastrava pelo quarto. Com um gesto seco, que perturba de imediato todo o silêncio da casa adormecida, fecha o armário, pega nas malas e desce as escadas do sótão, raspando uma última vez com a mão no tecto baixo de duas águas. Despede-se de sua mãe, que meia ensonada ainda larga uma lágrima, e sai de casa. Não olha sequer para trás, mas sem dar conta, já dentro do velho carro vermelho, vê de relance a janela azul do seu quarto, como que por reflexo a algo que se moveu. Será a última memória da sua antiga casa a desvanecer. Rapidamente cruza a vila onde nasceu e viveu toda a sua vida até então, com excepção de um ou outro mês há muito esquecido, toma uma das principais saídas da cidade, não é nem de perto a hora combinada, mas sabe que nenhum dos outros está a dormir e dirige-se para norte. Primeiro passa em casa de Eva, a mulher do grupo, e sua mais próxima companhia há coisa de três anos. Ao chegar, o gesto do costume, três pedrinhas do chão são lançadas contra a janela mais alta da velha casa, lembra-se rapidamente das tardes de verão ali passadas, os dois ou os quatro, a luz do quarto que aquecia a madeira escura do chão onde se costumavam deitar. Lá vem ela a descer as escadas, quinze minutos depois, malas em ambos os braços e um meio sorriso na boca. Entra em silêncio no carro, ocupa o lugar que há meia década lhe foi destinado, ao lado do condutor, beijam-se como se há muito não se vissem, sozinhos no mundo, respiram fundo, a custo desviam o olhar, o carro arranca. Dirigem-se agora em direcção ao centro da cidade. Lisboa. Em cada rua que passam vão lembrando aquilo que era, a linda cidade dos seus tempos de maior juventude, branca e familiar, hoje dominada pela luz intensa que foi conquistando terreno, e pelo movimento constante de pessoas e bens. A esta hora da noite nem todos os lugares da cidade são acessíveis, o recolher obrigatório, imposto em algumas partes de há dois meses para cá, e o trânsito automóvel embaraçam-lhes os movimentos na sua outrora conhecida cidade, assim têm de combinar com José um sítio seguro para se encontrarem, perto de sua casa, este não mora com a família, é muito mais célere a desocupar a sua morada, malas feitas e casa vazia. Rapidamente entra no carro, boa noite dito à pressa e arrancam, desta vez para Sul. Sobral mora do outro lado da ponte, e como de costume são mandados parar à entrada, mostram os documentos mas tentam esconder as caras nas escassas sombras, este pode ser um dos poucos interessados que ainda repara naquilo que se passa, seja pelos jornais ou pela televisão poderia reconhecê-los, e não estavam para perguntas acusadoras. Passaram sem problemas e pouco depois estavam em frente à casa de Sobral, viram a luz do quarto acesa e este assomou à janela assim que ouviu o carro parar, um grande sorriso acendeu-se no seu o rosto, sempre fora o mais alegre do grupo. Saíram para o esperar, este abalou rapidamente, ainda com uma manga do casaco por vestir, abraçou-os um a um e depois os quatro ao mesmo tempo. Sob a primeira luz da manhã que só agora acorda, as luzes artificiais são desligadas, os olhos descansam, sentam-se no carro que geme perante toda a carga, sozinho nas suas lamentações, que estes agora que seguem juntos sentem-se mais animados.

Sem comentários:

Enviar um comentário