9 de novembro de 2007

Pekka-Eric, Finlândia

Ele (são sempre eles) tinha 18 anos. Pekka-Eric Auvinen vivia na Finlândia, numa cidadezinha descrita como "pacata". Uma cidadezinha "pacata" cuja "pacatez" foi brutalmente interrompida por uma Sig Sauer de calibre 22, que fez 8 mortos e 20 feridos graves nos corredores de uma escola. Não foi só a cidadezinha que foi interrompida na sua tranquilidade, também um país inteiro, habituado à calma e à ordem acordou para esta situação: o Governo convoca uma assmbleia especial para debater o caso, os jornais, revistas e tvs vão esquadrinhar os hábitos, as influências, os gostos e tudo o que havia para saber sobre o tal rapaz. Um rapaz "pacato" e sorridente.
Pekka-Eric, antes de percorrer os corredores desta escola, decidiu expôr no Youtube (sempre no Youtube) onde contava os pormenores do seu acto futuro. Vamos, com certeza, voltar a ouvir as palavras "sou um cínico existencialista, anti-humano humanista, anti-social-darwinista e uma espécie de deus ateu",como se auto-denominava, e o dizer na T-shirt negra da imagem em que empunha a pistola: "Humanity is overrated". A humanidade pode ser sobrevalorizada, mas nunca podemos sobrevalorizar um Homem, uma vida.
Este "pacato" rapaz aclama a frase "ódio, estou cheio dele e adoro-o". Esta frase faz-nos lembrar as pessoas que conhecemos (e todos nós temos, pelo menos uma, na nossa vida) que tal como ele valorizam o culto do suícidio, o culto do negro e esta ideiaromântico-trágica sobre a humanidade. Mas estes milhões de pessoas como o Pekka-Eric não se tornaram no Pekka-Eric. Porquê? Porquê este inexplicável acto de um rapaz tão tranquilo? Precisamente por essa mesma tranquilidade, tranquilidade que se abate sobre nós e não nos deixa sequer sentir a culpa e a tristeza ao ver uma vida desaparecer perante nós. "Sou a lei, o juiz e o executor, não há maior autoridade que eu", sentenciou Pekka-Eric. Porquê? Como chegou a humanidade ao ponto de se tornar Toda-Poderosa? Precisamente, como Pekka-Eric diria, "humanity is overrated". Não há forma de remover estes actos da nossa memória, nem há forma de impedir que eles voltem a acontecer. A única coisa que podemos fazer é reflectir sobre isso e agir em concordância. Estas situações não podem servir só para dizer mal da música que o rapaz ouvia, dos livros que lia, da mãe, do pai, do gato, do país, do mundo. Estas situações têm de servir para que possamos agir sobre elas, usar toda a tristeza e indignação que advêm destas notícias e tentar mover o mundo, este mundo que permite que tais coisas aconteçam à humanidade. "Humanity is overrated". De quantos mais avisos precisamos para que deixe de ser?

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