16 de março de 2008

Voltar. Maior. Melhor.

Anda tudo à rasca com a saída do país. O programa Erasmus. Ninguém sabe para onde vai, para onde quer ir, e muitas vezes até as razões são estranhas ou difusas. Uns querem sair porque é o que se faz, outros porque querem ser diferentes. Uns que querem sair para se divertirem, outros querem estudar. Uns querem fugir dos pais, os outros só querem estar com os amigos. Uns saem pela oportunidade, os outros saem pela aventura. Uns porque a Nação não presta, outros porque é boa demais. E ainda há os que ficam. Todos têm um motivo, mas ninguém partilha o meu. Eu quero sair porque preciso de estar sozinho. Ainda que não me importasse de ir com uma cara conhecida, a verdade é que isso não deverá acontecer. Ainda não sei qual é o meu destino, ainda não sei sequer se vou. A verdade é que preciso de sair. De procurar qualquer coisa que me tire deste torpor, seja frio, quente ou assim-assim. Preciso da diferença, apesar de saber que nunca renunciarei as minhas raízes. Voltarei sempre para o meu berço, talvez diferente de quando o deixei. Espero que diferente. Melhor. Maior. Ou apenas mais lúcido.

E no meio disto tudo, lembro-me do Porto. Ah meu lindo Porto, fruto e mãe de todas as minhas paixões mais arrebatadoras. Porque tudo o que se passa comigo está de alguma maneira relacionado com essa cidade que sempre me encantou. E começo a pensar porquê. Bom, primeiro, pelas pessoas, as magníficas e resplandecentes pessoas, sempre com um sorriso na cara e uma palavra ou passo de ajuda. Ainda há pouco tempo me diz um amigo que também partilha esta velha paixão: "Subitamente, o som de um telefone. Com voz de trovão, o alfarrabista, e isto merece um parágrafo, isto merece um itálico, isto merece todo o destaque: Pró caralho com a modernidade, é telefones, telemóveis, campainhas, internet, já não posso com isto, puta da modernidade que nos tira o sossego, estavas, linda Inês, posta em sossego... Nos saudosos campos do Mondego... E depois da conversa ao telemóvel, É o engenheiro, quer que lhe avalie a biblioteca, isto anda tudo teso, ó caralho... Gosto do Porto."

E partilhamos um sorriso cúmplice. Pois sempre queremos voltar àquele sítio que tão boas recordações nos causa. E cada vez mais. Então é isso que procuro, apenas mais um Porto, mas fora, que me permita entrar de novo e com maior vida que nunca. Em busca de novas paixões e novas harmonias, proporções e belezas. Em segundo lugar, a côr, ou melhor, a luz. Dizem que Lisboa é a cidade branca. Para mim, o Porto é a cidade de todas as cores, de todas as vidas e de todos os corações.

Mas, mais que tudo isto, que a vida, as pessoas, a cor, as conversas, os sorrisos e as paixões, mais que tudo isso que torna o Porto numa cidade incrível e pitoresca, o que mais me atrai na dona do meu coração é a vontade de andar a pé. Sobe-se, desce-se, vai-se de Norte a Sul, de Este a Oeste a pé. Da primeira vez que lá fiquei mais tempo, queixei-me dos transportes públicos. Só depois comecei a reparar, com o tempo, que ainda bem que assim era. Ao moldar-me àquela vida percebi que o problema não era haver transportes a menos no Porto, mas a mais em Lisboa.

Desde pequeno que a minha visão de Lisboa era desconexa. Para mim, as Amoreiras, o Rato, o Príncipe Real, a Baixa e o Cais do Sodré não tinham qualquer tipo de ligação. Era tudo extremamente longe e quando ia a um dos sítios não ia ao outro. No Porto não. Primeiro, tudo parece estar mais junto (obviamente que o rio contribui para isso, uma vez que quem está no cais de Gaia praticamente se sente no Porto). Mas não é só isso, aliás, mais que isso, a vontade que se tem de percorrer aquelas ruas é de uma força indomável, a não ser pelo relógio ou pelo cansaço. Pois que quem vai ao Cais atravessa até à Ribeira, e quem está ali vai à Estação de S. Bento, à Sé e aos Aliados, até aos Clérigos. E daí até a rotunda da Boavista com a sua Casa da Música, e daí, Serralves e tudo o resto que eu não sei nomear, tudo parece alcançável a pé.

Até os mais velhos, ao perguntarmos como vamos para determinado sítio nos dizem "se seguir por aí a pé faz-se bem" (isto quando não nos acompanham, como já me aconteceu). Mesmo que acabemos por andar 30 minutos a subir eles dizem-nos que se faz bem. E faz-se. Mais que bem. Faz-se com um sorriso na cara, com asas nos pés e com os sentidos bem apurados. Pois que são estas as razões para que a cidade do Porto seja dona e senhora do meu coração.

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