28 de dezembro de 2008
Na Música, e à volta dela
Na sexta-feira, dia 26 de Dezembro de 2008, entrei num novo mundo, existindo desde há muito dentro das quatro paredes que conformam uma orquestra sinfónica. Foi uma visita rápida com contornos de espectador, tanto do concerto em si, como da vida para além dele, ou à volta dele. É um mundo de boa gente, homens grisalhos de rabo-de-cavalo que arrastam as mulheres de cabelo curto, meninos de gravata arrastados pelos pais tiranos, e mulheres também de gravata que arrastam os maridos carecas, todos eles falando entre si, cada um igual ao outro, mas onde uns se sentem mais iguais que outros. É também um mundo daqueles que fazem questão de não falar a ninguém, chegam tarde, bem vestidos, percorrem os corredores pelo centro andando a passo-de-noiva. É ainda um mundo daqueles que se confundem com o pano de fundo, ou com os panos de fundo, misturando-se nas sombras e cingindo-se aos recantos. É um mundo de famílias e conhecidos mas onde na verdade ninguém sabe bem o que dizer à pessoa ao seu lado, mesmo que a conversa seja numa língua que não entendo é fácil perceber o teor geral, são idênticas em toda a parte. É um mundo vestido de preto, pontilhado por branco, castanho, vermelho e fúccia, e de cabelos dourados reluzindo, naturalmente ou não. Não fossem os meus ténis encarnados e sujos, e não estivesse eu sozinho, e seria parte dele. Toca o sinal de entrada, as portas abrem-se e aqueles mais ávidos, aqueles que trazem no olhar a querença de existir neste espectáculo pela música, pelo ambiente mágico, e não pelo que nele decorre, invadem a sala e tomam o seu lugar, aguardando ansiosamente pela entrada dos músicos, aqueles que os conduzirão certamente ao cosmos que tanto esperam. Toca o segundo sinal, chamando aqueles que ainda ficaram para trás, os homens de rabo-de-cavalo e as mulheres de gravata, que entrando procuram o seu lugar e lentamente se dirigem aos lugares defronte do palco. Toca o terceiro sinal, mais longo, mais urgente, os músicos já se vêm para lá das portas esperando impacientes pela entrada dos tais a-passo-de-noiva, que ocupam os lugares da frente. Todos estamos sentados, anunciam o maestro, ele aí vem, sorridente, amigável, agradece ao público, vira-lhe as costas de supetão, a batuta levanta-se e com ela os instrumentos bem-mandados. Silêncio. O maestro ataca, o mundo forma-se e envolve-nos, envolve-me a mim pelo menos, e de certeza que envolve mais uns que outros, aqui não há tempo. A música entra rápida, vira e contorna, acalma só para voltar a acometer de novo, sobe, explode, e baixa, baixa muito, o formigueiro desaparece segundos depois ou aumenta de volume, consoate a vontade daqueles que criam, o maestro suspende-nos a respiração, e apenas algumas cadeiras ao lado soa uma tosse cavernosa que interrompe o momento, a música dirige-se para o fim e já todos preparam as mãos para o bater de palmas, o público ávido por fazer parte do espectáculo parece já ter o momento sincronizado.
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