10 de dezembro de 2008

Foreign Thoughts IV

Há muito tempo que não escrevo. Não consigo escrever, e aquilo que escrevo, algumas cartas, trabalhos e afins, são apenas rabiscos inúteis sobre um ou outro pensamento, ideia, tema. Na minha cabeça as coisas estão esbatidas, nada é propriamente real ou concreto, sobretudo o que vejo, como se andasse uma grande nuvem sempre à frente dos meus olhos. Não consigo formular frases com sentido, com significado, na minha cabeça, a minha maneira de pensar usual desapareceu, deixando para trás a sua memória que me assola. Até os sentimentos... limpos, claros, simples e sem confusões, até esses perderam a sua maneira de ser, agora tudo o que para mim tem significado me deixa à beira de um ataque de nervos, a ansiedade prolonga-se para além das entregas dos trabalhos, e mesmo até para além da entrega da nota final, por muito boa que ela seja. E as saudades já não são sequer saudades, é mais, muito mais, como se algo indispensável se tivesse perdido para sempre. Nem o facto de saber que daqui a menos de um mês, sei lá eu quanto tempo isso pode ser, terei a minha vida de volta me ajuda com muita frequência. Sim, os meus poucos momentos de paz passo-os a pensar nessa longínqua viagem, nesse passeio de avião de Vilnius a Veneza. Mas mesmo isso por vezes me parece tão irreal como a cidade que vai passando à minha frente. Agora, sou alguém sem tempo, sem espaço, aqui não tenho um sítio meu, como era o sofá lá de casa, ou o Cabo Espichel, até ao sítio onde moro tenho dificuldade de chamar casa, os dias são as noites e as noites os dias, as 24h que eu tão bem conhecia perderam-se, nunca sei dizer que horas são, para agravar tudo isto não vejo o Sol há mais de duas semanas. Literalmente. E não é porque o céu está sempre encoberto, tenho luz do dia, mas o Sol não está suficientemente alto para que ilumine sequer as fachadas dos edifícios. É horrível. É um mal que se instala sem nos apercebermos. E a cidade não ajuda. Se estivesse de novo em Estocolmo acredito que seria diferente, as ruas são mais largas, não literalmente mas no espírito, respira-se familiaridade, mas aqui não, é tudo cinzento e com traços de amarelo e vermelho pálidos que dão mais tristeza que cor, e como as ruas já estão de novo sem neve, nem isso ajuda. Mas sim, mais um trabalho e dois exames, e descanso, que é algo que não conheço há algumas semanas. Não tem a ver com o facto de trabalhar bastante, mas a eliminação das preocupações poderá, finalmente, trazer-me alguma paz. Não fui feito para viver só, talvez sozinho, mas nunca só. Nenhum homem é uma ilha, e eu não sou bem um continente. E então, duas semanas depois do fim das preocupações, que eu espero que seja o fim das preocupações, e vem o Natal, passado só mas não sozinho, e aquilo que devem ser 4 dias dilacerantes até uma longa viagem de avião em direcção ao sul. E lá me juntarei a outra ilha, literal e figuradamente, Veneza e Ela.

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