Para me apropriar deste objecto e descrevê-lo como arte, preciso, primeiro, de limitar o campo em que irei trabalhar essa definição. Não tentarei explicar o que considero como arte, mas antes o porquê de considerar o Santuário da Nossa Senhora da Pedra Mua (mais conhecido como Santuário da Nossa Senhora do Cabo Espichel) como uma obra de arte.
“ (…) um conceito de forma como fusão em acto de “conteúdos” que, antes de se tornarem forma, eram puras abstracções intelectuais ou obscuras razões psicológicas; um conceito de fusão como “semelhança” entre um universo psicológico e cultural e uma matéria que assume uma configuração insubstituível; um conceito de arte como realização de uma formatividade querida por si, visto que os vários pressupostos só entram na ordem da arte quando canalizados e transformados numa operação formativa (…) em arte, forma-se justamente para que os vários elementos a que se dá forma sejam valorizados e se tornem susceptíveis de fruição, interpretação e julgamento enquanto objecto formado.”
Umberto Eco, sobre as teorias de De Sanctis e Luigi Pareyson
Defino, então, um objecto artístico como algo que implica um fazer concreto, num contexto material e estrutural, mas que também se constrói de um espírito de síntese, de uma maneira inveterada de nos transmitir conhecimentos, condutas e moralidades, através de uma forma (organismo físico dotado de vida autónoma, harmonicamente regida pelas leis do artista, do fruidor e da própria obra); corroborando a teoria da formatividade de Pareyson, concebo toda a actividade humana como possuidora de uma artisticidade intrínseca, mas a obra de arte é aquela onde coabitam sentimentos, moralidades e conhecimentos, que nesta se destinam à “formação de uma forma”, à “formatividade pura” e à realização de um propósito estético. Para ser arte tem de ser forma (essa forma encontra-se separada das outras características que o objecto possa, porventura, sustentar) e este tipo de formatividade não pode estar separado de uma existência física: toda a obra de arte edifica-se de matéria e conteúdo.
“ (…) a obra vive e vale como realização da própria poética, expressão concreta de um universo de problemas culturais vistos como problemas construtivos, mas o universo dos problemas construtivos só ganha o seu sentido mais pleno no contacto directo com a forma formada, que apenas dá sentido e valor ao modelo formal proposto e realizado.”
Umberto Eco
“Na arte, esta formatividade, que investe toda a vida espiritual, e torna possível todas as outras actividades específicas, especifica-se por sua vez, acentua-se numa preponderância que faz depender de si todas as outras actividades, apresenta uma tendência autónoma… Na arte, a pessoa forma simplesmente por formar, e pensa e age para poder formar.”
Luigi Pareyson
É, então, nesta correspondência com a vida espiritual entre a obra e o fruidor que a obra se consuma; gera-se uma inter-dependência entre homem e forma, em que se completam mutuamente. Para que uma forma seja arte para o seu fruidor, é necessária uma cumplicidade, uma amizade entre ambos, em que a obra de arte só é arte na medida em que é fruída, e o seu fruidor se transforma segundo as ordens da obra. “Uma obra de arte é um testemunho do céu feito na terra.” A obra de arte satisfaz o anseio humano pelo infinito; torna, momentaneamente, o perfeito em material e permite ao fruidor, completando as suas falhas espirituais, que este se lance em outras actividades. Perante uma obra de arte, tudo está como deve estar e esta faculta a quem de si usufrui que absorva o conhecimento necessário àquele momento, preparando-o para o que se segue.
Um dos primeiros sentimentos perante a arte pode-se traduzir em comoção: um movimento em conjunto, um rever-me naquela obra, que me mostra que não estou sozinho, que houve e há mais alguém que pensa da mesma maneira que eu e que, perante aquela obra, se sente como eu. E é isso que acontece quando nos integramos na praça central do Santuário da Nossa Senhora, no Cabo Espichel: dá-se uma coincidência entre mim e todas as pessoas que estiveram envolvidas na sua construção, e ainda entre mim e as pessoas que, como eu, assim se sentiram perante este cenário. Ao aproximarmo-nos do complexo vamos entrando num ambiente específico, respirando um ar que nos transporta aos tempos da sua construção. A arte, ao contrário da história, não nos relata o passado: ela transporta-nos através do tempo para essa era; nós não tomamos apenas conhecimento da sua história, nós somos a história.
“ (…) um conceito de forma como fusão em acto de “conteúdos” que, antes de se tornarem forma, eram puras abstracções intelectuais ou obscuras razões psicológicas; um conceito de fusão como “semelhança” entre um universo psicológico e cultural e uma matéria que assume uma configuração insubstituível; um conceito de arte como realização de uma formatividade querida por si, visto que os vários pressupostos só entram na ordem da arte quando canalizados e transformados numa operação formativa (…) em arte, forma-se justamente para que os vários elementos a que se dá forma sejam valorizados e se tornem susceptíveis de fruição, interpretação e julgamento enquanto objecto formado.”
Umberto Eco, sobre as teorias de De Sanctis e Luigi Pareyson
Defino, então, um objecto artístico como algo que implica um fazer concreto, num contexto material e estrutural, mas que também se constrói de um espírito de síntese, de uma maneira inveterada de nos transmitir conhecimentos, condutas e moralidades, através de uma forma (organismo físico dotado de vida autónoma, harmonicamente regida pelas leis do artista, do fruidor e da própria obra); corroborando a teoria da formatividade de Pareyson, concebo toda a actividade humana como possuidora de uma artisticidade intrínseca, mas a obra de arte é aquela onde coabitam sentimentos, moralidades e conhecimentos, que nesta se destinam à “formação de uma forma”, à “formatividade pura” e à realização de um propósito estético. Para ser arte tem de ser forma (essa forma encontra-se separada das outras características que o objecto possa, porventura, sustentar) e este tipo de formatividade não pode estar separado de uma existência física: toda a obra de arte edifica-se de matéria e conteúdo.
“ (…) a obra vive e vale como realização da própria poética, expressão concreta de um universo de problemas culturais vistos como problemas construtivos, mas o universo dos problemas construtivos só ganha o seu sentido mais pleno no contacto directo com a forma formada, que apenas dá sentido e valor ao modelo formal proposto e realizado.”
Umberto Eco
“Na arte, esta formatividade, que investe toda a vida espiritual, e torna possível todas as outras actividades específicas, especifica-se por sua vez, acentua-se numa preponderância que faz depender de si todas as outras actividades, apresenta uma tendência autónoma… Na arte, a pessoa forma simplesmente por formar, e pensa e age para poder formar.”
Luigi Pareyson
É, então, nesta correspondência com a vida espiritual entre a obra e o fruidor que a obra se consuma; gera-se uma inter-dependência entre homem e forma, em que se completam mutuamente. Para que uma forma seja arte para o seu fruidor, é necessária uma cumplicidade, uma amizade entre ambos, em que a obra de arte só é arte na medida em que é fruída, e o seu fruidor se transforma segundo as ordens da obra. “Uma obra de arte é um testemunho do céu feito na terra.” A obra de arte satisfaz o anseio humano pelo infinito; torna, momentaneamente, o perfeito em material e permite ao fruidor, completando as suas falhas espirituais, que este se lance em outras actividades. Perante uma obra de arte, tudo está como deve estar e esta faculta a quem de si usufrui que absorva o conhecimento necessário àquele momento, preparando-o para o que se segue.
Um dos primeiros sentimentos perante a arte pode-se traduzir em comoção: um movimento em conjunto, um rever-me naquela obra, que me mostra que não estou sozinho, que houve e há mais alguém que pensa da mesma maneira que eu e que, perante aquela obra, se sente como eu. E é isso que acontece quando nos integramos na praça central do Santuário da Nossa Senhora, no Cabo Espichel: dá-se uma coincidência entre mim e todas as pessoas que estiveram envolvidas na sua construção, e ainda entre mim e as pessoas que, como eu, assim se sentiram perante este cenário. Ao aproximarmo-nos do complexo vamos entrando num ambiente específico, respirando um ar que nos transporta aos tempos da sua construção. A arte, ao contrário da história, não nos relata o passado: ela transporta-nos através do tempo para essa era; nós não tomamos apenas conhecimento da sua história, nós somos a história.
“The plant grows from its seed.
The characteristic of its form lie concealed in the potential power of the seed. The soil gives it strength to grow. And outer influences decide its shape in the environment.
Art is like the plant.
The quality of art lies concealed in the potential power of the people. The aim of the age is the soil that gives its vitality. And outer influences decide its fitness in its environment.
To understand life, and to conceive form to express this life, is the great art of man.”
Eliel Saarinen
Esta expressão traduz, em grande parte, a razão pela qual eu considero o Santuário da Nossa Senhora do Cabo uma obra de arte. De todas as características anteriormente apontadas para a caracterização de uma obra de arte, a expressão do conteúdo (o solo) através de uma matéria (a planta) é a que se apresenta mais explícita e manifesta no Santuário, e que está intimamente relacionada com o alcance histórico do edifício. De facto, a capacidade expressiva dos seus criadores através da forma da obra é de uma aptidão notável. Aquando da construção da Igreja e sucessivas ampliações das hospedarias, este local era apenas marcado por uma pequena ermida, encostada à ravina, que m
É aqui que entram os conceitos de Luigi Pareyson de “formatividade pura” e “forma formante”. Pelas suas características intrínsecas, a Arquitectura separa-se (tanto na sua criação como fruição) do âmbito geral das outras artes; a visão estética de um edifício não se pode separar das suas características funcionais, um edifício não pode ser compreendido como uma escultura, em que a função apenas acidentalmente se junta às suas características estéticas. Esta visão escultórica da Arquitectura implica a ideia errónea de que se pode avaliar um objecto in abstracto, sem saber o que é. Como tal, talvez não possa falar de uma “formatividade pura” no sentido estritamente artístico desta obra. No entanto, existe, sem dúvida, uma tentativa de formar algo que correspondia a uma forma formante inicial, que estabeleceu as suas leis para a construção do edifício, e que se prendia com necessidades espirituais e, como tal, se afastavam das necessidades puramente funcionais.
A forma física do edifício é dotada de uma enorme capacidade estética precisamente por estas características: não só responde de uma forma clara e quase perfeita às necessidades funcionais (criar habitações e estruturas de apoio aos peregrinos, a protecção contra as intempéries, criar um espaço central para organizar as festas, arraiais e peregrinações e criar as estruturas necessárias à prática da religião), como essa mesma forma que tão bem responde a esse tipo de necessidades, equivale e se harmoniza com as necessidades espirituais desse mesmo espaço (a criação de um espaço de introversão e comunhão com uma divindade ou com o interior de cada um, a paz, a protecção intelectual, entre outras que vão variando de fruidor para fruidor). Uma das suas características mais notórias é mesmo a capacidade de se adaptar, de comunicar e de responder das mais variadas formas com cada pessoa. Mais ainda: não só a “forma formada” responde às necessidades a que uma obra de arte deve responder, como ainda nos transmite as condutas e moralidades inerentes à sua “forma formante”, que se traduz numa total liberdade na apropriação do complexo (como se este fosse criado por nós e para nós) e, ao mesmo tempo, na transmissão de um sentido solene a quem ali se encontra.
“E fruir uma obra como forma sensível quer dizer reagir aos estímulos físicos do objecto, e reagir não apenas através de um acordo de ordem intelectual, mas através de um conjunto de movimentos cinestésicos, com uma série de respostas emocionais, de maneira a que a fruição do objecto, ao complicar-se com todas estas respostas, não assuma nunca a exactidão unívoca da compreensão intelectual de um referente unívoco, e a interpretação da obra se torne por isso mesmo pessoal, posicionada, mutável, aberta.”
Umberto Eco
Numa outra dimensão, e como referi anteriormente, creio que uma das características que determinam se uma determinada forma é ou não arte prende-se com a sua capacidade de gerar entre si e quem a presencia uma inter-dependência: só nesse momento é que a obra se completa e entra no domínio da arte. Aqui, no Santuário, essa conexão entre forma e sujeito é por demais inequívoca. Não só pela sua própria função, de culminar de peregrinação, como pelas suas características inerentes, o Santuário da Nossa Senhora do Cabo é dos edifícios que mais profundamente se relaciona com quem o visita. O modo como abraça quem chega (não só pela forma como vira as costas ao mar, como pelo seu braço ligeiramente mais comprido, que bloqueia a visão directa da costa e os ventos, e que reflecte o movimento do visitante para o seu interior) chegaria para estabelecer esta relação entre ambos. Contudo, o seu ritmo ininterrupto mas imperfeito, o seu aspecto tosco, despretensioso, sóbrio e natural, o desenho maternal das hospedarias que nos protegem das intempéries e da falésia, a figura paternal da singela Igreja que nos protege de outros males mais abstractos, e até mesmo a imagem fantasiosa da Mãe de Água tornam aquele complexo em muito mais do que apenas um lugar de protecção. É um lugar que convida à reflexão interior, ao “estarmos connosco mesmos” e que, de facto, satisfaz o nosso desejo por algo mais intemporal que nós próprios. Como se tratasse de uma antecâmara para um lugar supremo, purifica-nos, liberta-nos dos males apenas pelo facto de os trazer à flor da pele e mostra-nos como viver com todas as nossas limitações terrenas. E, depois desse primeiro estado de arrebatamento, devolve-nos à terra e à nossa vida, limpos e renovados. Aqui, todo o seu esplendor, que se esconde debaixo de um aspecto ordinário e rudimentar, mostra-se conseguimos ver, não só, a obra a funcionar em nós, como nós a funcionarmos na obra, confirmando a presença de uma artisticidade incomum, mas axiomática, intuitiva e, como tal, acessível a todos.


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