As relações, princípios e problemas
Para tentar explicar as características essenciais da Arquitectura e do objecto de Arquitectura, tentarei analisar o que se passa na vida contemporânea, estabelecendo um paralelo com a situação actual da Arquitectura e com a sua importância, caracterizando sobretudo o porquê da sua não aplicação, terminando com uma possível resolução dos problemas.
Para tentar explicar as características essenciais da Arquitectura e do objecto de Arquitectura, tentarei analisar o que se passa na vida contemporânea, estabelecendo um paralelo com a situação actual da Arquitectura e com a sua importância, caracterizando sobretudo o porquê da sua não aplicação, terminando com uma possível resolução dos problemas.
Assistimos hoje em dia a um mundo cada vez mais violento, mais irracional, mais desumano. O mundo é gerido pelas leis do mercado, pelo poder, pela globalização, pela uniformização e pela especulação financeira. A partir da Revolução Industrial, o Homem torna-se num animal de trabalho – o sentido da sua existência já não é a criação do Mundo, já não é sequer a criação de objectos eternos que constroem o mundo, é a criação de bens de consumo que se destinam a ser substituídos por outros. A aceleração do tempo inicia-se, e surge a contestação do passado. Uma das premissas do Movimento Moderno era mesmo a ideia de que devemos negar o passado, redefinir o modo de apropriação do espaço, criar “uma nova condição de urbanização do espaço habitacional, assente nos novos estatutos de mobilidade versus imobilidade, e nos novos conceitos de telepresença, redes de comunicação, informação e media”[1]. A vontade absurda de criar algo novo traduz-se numa particular vontade de esquecimento. A Arquitectura (cuja importância para o ser humano veremos depois) tenta, agora, inventar-se a partir do zero. Posto isto, sabemos que a Arquitectura perde o seu lugar na sociedade, sendo substituída, sobretudo, pelo Design e pela Engenharia. Os próprios ditos “objectos de Arquitectura” não são mais que objectos de consumo[2]. A estética é agora baseada na festa, na exuberância, no espectáculo que representa a vida. A vida, de facto, já não é mais que isso: uma representação exterior que esconde a apatia, a desolação e a confusão interior, e tudo isto resulta numa desumanização da sociedade e da Arquitectura, Como alguém que não tem passado, não tem raízes, não sabe para onde ir porque não sabe de onde vem, o Homem esconde-se. O resultado está à vista de todos[3].
Muitos são os autores que falam desta desumanização nas suas obras. Na literatura temos Huxley (com O Admirável Mundo Novo), Orwell (com 1984) ou Bradbury (com Farenheit 451). Na música, Pink Floyd (sobre a 2ª Grande Guerra) ou Massive Attack (sobre a Revolução Francesa e sobre a relação do indivíduo consigo mesmo). No cinema, Ridley Scott (com Blade Runner) ou Andy e Larry Wachowski (com Matrix). Na Banda Desenhada, Enki Bilal (com a Trilogia de Nikopol). Entre outros. Estes artistas não falam de assuntos do imaginário ou do irreal. Estas obras são profundos diagnósticos da época em que vivemos. E em todas elas casos há algo que as une, um fio condutor: o problema da memória – ou, pelo menos, da difícil relação do Homem Moderno com o seu passado. De facto, é na memória que reside a própria essência humana, a sua identidade. A memória é o que faz o ser humano. A memória é, antes de tudo, aquilo que nos permite reconhecer o mundo e reconhecer-nos no mundo: “Mas é a memória dessas coisas – ou melhor, da experiência dessas coisas – que me permite reconhecê-las ou evocá-las como coisas... deste mundo”[4]. A memória é o que nos permite identificar e interpretar o mundo, ou melhor, a interacção do que se passa à nossa volta connosco mesmos, através de experiências passadas. Tomemos como exemplo um doente de Alzheimer: os pacientes tornam-se impulsivos, pois não tendo memória, não podem analisar e comparar o acto presente com situações passadas. Surgem acções violentas ou de irascibilidade, seguidas por momentos de apatia e melancolia[5].
Com esta ideia em mente, podemos então perceber a importância das Artes – e sobretudo da Arquitectura – na vida humana através das palavras de John Ruskin: “There are but two strong conquerors of the forgetfulness of men, Poetry and Architecture; and the latter in some sort includes the former, and is mightier in its reality”[6]. Temos quatro ideias fundamentais nesta frase: em primeiro lugar, Ruskin refere que a Arquitectura conquista a memória. Reportando-me às obras anteriormente faladas, especialmente aos livros 1984, O Admirável Mundo Novo e Farenheit 451, e ao filme Matrix, podemos perceber que a luta do Homem pela memória é a sua luta eterna pela sua identidade e contra o poder. Nestas obras a sociedade apresenta-se completamente alterada e escravizada, onde há um desaparecimento da capacidade crítica, incapacidade de viver em sociedade, comportamentos de violência ou, por oposição, de apatia. Isto porque nalgum momento da história a memória foi alterada, através da alteração dos seus instrumentos, daquilo que a suporta (em Matrix atinge-se o limite: a memória dos seres humanos é artificial e manipulada pelas máquinas. Os seres humanos que vemos ainda ligados à “Matrix” não passam de baterias que fornecem energia às máquinas, não sendo, portanto, humanos). Assim sendo, uma sociedade sem Arquitectura (o grande conquistador da memória) é uma sociedade escravizada (uma sociedade onde os indivíduos não têm identidade). Em segundo lugar, porquê a Arquitectura e a Poesia, e não a História? Aqui, o factor de maior importância é que a boa memória não está ligada à distância até onde vai, mas à força, à vivacidade com que reporta as recordações. E isso apenas as artes podem fazer, apenas a arte eu me consigo ver reflectido, assemelho-me à obra que está à minha frente, sinto-me introduzido na história, não sou um mero observadores.[7] “A Arte (ou a Poesia) e não a História, é pois o principal defensor da Memória: porque só ela tem a capacidade de voltar a suscitar, de re-presentar a mesma total participação do Eu que no Passado determinou a minha identidade (...) A História tem a capacidade de enunciar os conteúdos do Passado, mas não de os fazer re-acontecer”[8]. No terceiro aspecto, Ruskin diz-nos que a Arquitectura é mais forte que a Poesia. Porquê? Isso não está apenas ligado à sua durabilidade ou ao seu carácter público (apesar de que estes dois factores são, na realidade, bastante importantes para a sua importância numa sociedade). Esta força está também ligada a uma característica que a Arquitectura deve possuir e da qual falarei mais pormenorizadamente: a capacidade de recolher e de acolher o Homem. Esta característica essencial da Arquitectura está ligada ao quarto, e último, factor: porque é que a Arquitectura engloba as outras artes e não está apenas inserida nelas? Precisamente devido à sua capacidade de recolher e acolher o Homem. Porque só estando num espaço que me protege, que me assegura a sobrevivência, é que eu posso abandonar-me e sentir-me arrebatado pela arte.
Ruskin acrescenta ainda que todos temos dois deveres para com a Arquitectura: preservá-la (para que ela continue a defender-me), mas preservar apenas o que deve ser preservado; e tornar a Arquitectura contemporânea em histórica (dar-lhe a capacidade para reter a memória). Em primeiro lugar, esta preservação da Arquitectura terá de ser uma preservação ponderada, crítica. É necessário reconhecer a realidade e assimilá-la, entender o que é que ela tem para mim, recorrendo à experiência da Arquitectura do passado e percebendo o que se mantém actual[9]. Entramos, então, no âmbito da tradição[10]. A tradição servirá, também, para cumprir o segundo dever para com a Arquitectura. Mas que significa tornar a Arquitectura contemporânea em histórica? Significa torná-la intemporal, torná-la parte activa da memória da sociedade. Significa torná-la em Monumento[11]. Ruskin diz-nos, então, que devemos não só preservar os Monumentos que já existem, como devemos criar novos. Parece-me, devido à importância da memória, e consequentemente da Arquitectura, na vida do Homem, que estes deveres são bastante importantes para o próprio ser humano. Mas, então, porque são estes Monumentos tão importantes para a memória?
Antes de responder à pergunta, é importante que se refira uma característica essencial da Arquitectura, já falada anteriormente: a de acolher e recolher o Homem. É importante aqui mencionar os estudos de Heidegger, de onde retiro as seguintes conclusões: “A palavra do antigo alto alemão para construir, «buan», significa habitar (...) Construir, buan, bhu, beo é, a saber, a nossa palavra «sou» (...) O modo como tu és e eu sou, a maneira segundo a qual nós homens somos sobre a Terra é o Buan, o Habitar (...) Habitar, ser posto em paz, quer dizer: permanecer vedado no Frye, i.e. no livre, o que preserva qualquer coisa na sua essência. O traço fundamental do Habitar é este preservar”[12]. Percebemos então que o habitar é um traço fundamental do ser humano, é a forma como este se dispõe no mundo e se relaciona com o espaço, ou seja, se deposita no real (lembro que, como disse anteriormente, a memória é o instrumento que nos permite identificar o que se passa à nossa volta através de experiências passadas e, como tal, é também uma ferramenta essencial a este habitar). Entendemos, também, que uma das características fundamentais do habitar é o preservar, o manter intacto, incólume e inalterado. O Homem manifesta-se nas coisas, mas essas coisas têm de possuir as características necessárias à sua preservação. É, então, a habitação (como utensílio, não único, mas essencial ao habitar) que me permite “ser” como eu “sou”. A existência do lugar que me permite habitar é essencial para mim e para a minha existência. Emmanuel Levinas ajuda-nos a perceber melhor a importância deste espaço habitável, ou, como o próprio intitula, a morada[13] [14]. A morada tem duas funções essenciais: a de acolher o Eu e a de o lançar para o mundo, pois ela é uma espécie de âncora, ou melhor, espaço de fuga para onde eu posso sempre voltar, mas que ao mesmo tempo, precisamente por isso, me permite sair para o mundo. É um lugar de segurança porque me oferece guarida, preserva-me. Nesta morada o Eu pode concentrar-se em si mesmo, pode baixar a guarda, pode voltar-se para dentro, pois está protegido, não só das intempéries como também da corrosão do tempo. “A verdade é que, faça o homem o que fizer, tudo o que ele faz tem por fim anular o tempo, suprimi-lo, e a esta supressão se chama espaço”[15]. Além disso, a morada é, também, a apresentação do Eu ao mundo, a sua representação exterior. A morada é, em primeiro lugar, um ninho, e, em segundo lugar, uma couraça. A morada não é morada se não cumprir as duas funções, o abraçar e o representar[16]. Não existe, então, morada sem habitar, tal como não existe um habitar pleno sem morada. E é aqui que morada se funde com monumento. É precisamente a capacidade de acolher o Homem, a capacidade que a Arquitectura tem para permitir o encontro do Eu consigo mesmo, para permitir habitar, que a torna tão importante para a memória: a Arquitectura como monumento é um veículo para a memória, activa a memória do Eu quando lhe permite reflectir sobre si próprio (e, como tal, sobre as suas memórias, pois elas são a única parte objectivável no ser humano). É através da relação de afectividade, amizade mesmo, entre o Homem e a sua morada que lhe permite depositar a sua própria identidade no espaço que habita. A Arquitectura torna-se participante em mim, une-se, funde-se comigo e eu dou-lhe, mostro-lhe, deposito nela aquilo que eu tenho, que eu sou. E, ao fazê-lo, quando voltar a entrar em contacto com essa Arquitectura, tudo o que nela depositei voltará a existir[17].
Pretendeu-se, aqui, estabelecer um paralelo entre a degradação da sociedade moderna com a degradação dos valores da Arquitectura, fixando, explicando e unindo as características que compõem aquilo que considero ser a essência da Arquitectura, aquelas que são, de facto, as ferramentas que a Arquitectura deve usar para responder às necessidades primordiais do Homem: o seu trabalho com a memória, o seu carácter monumental e a sua obrigatoriedade em ser morada. É, também, importante perceber que nunca na sua história o Homem rejeitou a Arquitectura como o faz agora, precisamente porque ela deixou de responder a estas necessidades. Ainda, isto não é motivo para que os Arquitectos se afastem da sociedade, ou, por outro lado, tentem ensinar às pessoas como viver ou como habitar. Não. Isto é um motivo para que os princípios da Arquitectura voltem a ser postos em cima da mesa, discutidos e clarificados. E não me refiro aos problemas estéticos ou construtivos. Esses já são suficientemente debatidos e, porque o conhecimento de Arquitectura se apresenta confuso, não são consensuais. É necessário voltar a pensar sobre a essência da Arquitectura: compreender que a Arquitectura não nasceu na caverna ou na cabana, mas no menir, no acto de tornar um espaço do mundo “meu”, de cosmificar o caos[18]; entender que essa Arquitectura evoluiu e que tem de proporcionar abrigo; saber que o objectivo último da Arquitectura é sempre o servir o habitar do Homem. Perceber que estes três parâmetros devem coexistir em cada obra arquitectónica: a parte técnica do programa, a funcionalidade e utilidade que devemos proporcionar; a parte simbólica, ligada ao acto de erigir um menir; e a parte viva do objecto, que proporciona o habitar[19]. Finalizando, penso que nos encontramos num período onde o trabalho dos arquitectos ganha enorme importância, não apenas no acto de fazer Arquitectura, mas no acto de pensar Arquitectura. Num período onde se diz que a Arquitectura morreu, eu penso que a Arquitectura nasce, precisamente porque nos apercebemos da sua morte.
[1] Francisco Nascimento Oliveira «Metáforas de um Novo Habitar» in Arquitextos 01. Alto da Ajuda: Centro Editorial da Faculdade de Arquitectura, 2007; p. 105.
[2] “Lembro Gropius, depois de visitar minha casa nas Canoas: “Sua casa é muito bonita mas não é multiplicável.” E eu a olhá-lo condescendentemente, pensando: “Como se diz bobagem com ar de coisa séria.” - Oscar Niemeyer - Conversa de arquitecto. Porto: Campo das Letras - Editores S.A., 1997; p. 14
[3] “O processo ideológico que se está a verificar promove o encaminhamento para análises lógicas e críticas da arquitectura, através de uma reflexão sobre ideias remetidas à expressão de símbolos, individualistas ou imaginários, havendo uma ruptura com o passado e uma atitude de afastamento dos problemas, à semelhança da avestruz que mete a cabeça na areia (…) As causas da arquitectura são abaladas e as definições das imagens ficam limitadas ao prazer das sensações (…) Nesta panorâmica, passa-se a dar mais atenção aos problemas ideológicos e políticos que nos rodeiam do que propriamente à existência da vida em comum com os seus problemas intelectuais e culturais (…) Estas preocupações alteram a relação entre o homem e a arquitectura, nas suas tendências culturais, para se dirigirem mais ao lazer e a outras actividades (…) É nesta perspectiva que as imagens de arquitectura estão a ser o retrato de uma civilização alienatória, onde as proposições do espírito crítico e moral apresentam uma estrutura sem história e assinalam um estado de produção económico em que todos somos párias (…) Esta nova teoria do conceito de capitalismo revela uma tendência que provoca a descodificação e a desterritorialização, produzindo na produção social e no homem uma esquizofrenia” - Victor Consiglieri - As metáforas da arquitectura contemporânea. Lisboa: Editorial Estampa, Lda., 2007; pp. 29-33
[4] José D. Gorjão Jorge – Lugares em Teoria. Casal de Cambra: Caleidoscópio, 2007; pp. 10-11.
[5] Pedro Marques de Abreu «Arquitectura: Monumento e Morada» in Arquitextos 04. Alto da Ajuda: Centro Editorial da Faculdade de Arquitectura, 2007; pp. 12-13.
[6] John Ruskin – The Seven Lamps of Architecture. VI-Lamp of Memory
[7] “ Um dia - John calculava que devia ter sido pouco depois do seu décimo segundo aniversário - entrou em casa e encontrou no chão, no quarto de dormir, um livro que ainda não tinha visto (…) O livro intitulava-se Obras Completas de William Shakespeare (…) Ele abriu o livro ao acaso: “Não, mas viver / No suor fétido de um leito imundo, / Imerso em corrupção, a fazer carícias e a amar / Sobre a pocilga asquerosa…”. As estranhas palavras rolaram-lhe através do espírito, ressoando como um trovão falante, como os tambores das danças de Verão, se os tambores tivessem podido falar”. Aldous Huxley - O Admirável Mundo Novo. Lisboa: Colecção Mil Folhas PÚBLICO, 2003; p.136.
[8] Pedro Marques de Abreu «Arquitectura: Monumento e Morada» in Arquitextos 04. Alto da Ajuda: Centro Editorial da Faculdade de Arquitectura, 2007; p. 16.
[9] Henri Matisse «Há que ver toda a vida com olhos de criança»
[10] “É a tradição, conscientemente abraçada, que oferece uma totalidade de visão sobre a realidade (...) A tradição, de facto, é como uma hipótese de trabalho, com a qual a natureza lança o homem na comparação com todas as coisas” Luigi Giussani – Realtà e giovenezza. La Sfida. Torino: SEI, 1995; p. 165.
[11] O significado de Monumento que aqui uso provém do latim, monumentum, que significa recordação, e não o seu significado contemporâneo de “edifício imponente pela sua beleza, grandeza ou antiguidade”.
[12] Martin Heidegger – Contruir, Habitar, Pensar [Bauen, Wohnen, Denken]. In Martin Heidegger, Vorträge und Aufsätze. Pfullingen: Günther Neske, 1954. pp 145-162
[13] Emmanuel Levinas – Totalidade e Infinito, A Morada. pp. 135-165
[14] Sublinhando a importância desta morada para a vida humana, Aldous Huxley refere-a em O Admirável Mundo Novo, quando Mustafa Mond dirige-se a um grupo de cientistas
(pertencentes ao tipo de sociedade falada anteriormente) e pergunta: “-E sabem o que era um lar? Sacudiram a cabeça negativamente”.Aldous Huxley - O Admirável Mundo Novo. Lisboa: Colecção Mil Folhas PÚBLICO, 2003; p.48.
[15] Hermann Broch – Os Sonâmbulos: Degradação de Valores (3). Lisboa: Arcádia, 1965. pp. 432-433
[16] Victor Hugo explica bastante bem esta relação entre a morada e o ser humano na sua obra Notre Dame de Paris, quando se refere à relação entre Quasímodo e a Catedral: “Com o tempo tinha-se formado não sei que laço íntimo, que prendia o homúnculo à igreja (…) Notre Dame, à medida que ele crescia e se desenvolvia, fora sucessivamente para ele o ovo, o ninho, a casa, a pátria, o universo (…) Foi assim que, desenvolvendo-se pouco a pouco, sempre no meio da catedral, vivendo, dormindo e quase nunca de lá saindo, experimentando a todo o instante uma pressão misteriosa, chegou a assemelhar-se-lhe, a embutir-se-lhe, por assim dizer, e a fazer parte integrante dela. Os seus ângulos salientes encaixavam (perdoe-se-nos a figura) nos ângulos reentrantes do edifício, parecendo dele não só o habitante, mas também o seu conteúdo natural (…) Era a sua morada, a sua toca, o seu invólucro. Havia entre a velha igreja e ele uma simpatia instintiva e tão profunda, tantas afinidade magnéticas, tantas afinidades materiais, que di-lo-iam aderido ao templo como a tartaruga à carapaça. A rugosa catedral era a sua casa” Victor Hugo - Notre Dame de Paris. Livro IV, Capítulo III - “Imannis Pecoris custos, immanior ipse”
[17] Esta ideia da Arquitectura como depósito das memórias está fortemente presente na obra de Jorge Luís Borges - “O Cativo”.
[18] “Um território desconhecido, estrangeiro, desocupado (…) participa ainda na modalidade fluída e larvar do «Caos». Ocupando-o e, sobretudo, instalando-se. O homem transforma-o simbolicamente em Cosmos mediante uma repetição ritual da Cosmogonia”. Mircea Eliade - O Sagrado e o Profano - A Essência das Religiões. Lisboa: «Livros do Brasil», 2002; p. 45.
[19] José D. Gorjão Jorge – Lugares em Teoria. Casal de Cambra: Caleidoscópio, 2007; p 99.
pfff! eu sublinhava-te aí essa última frase.
ResponderEliminarahah